Penas Vermelhas, Tráfico de Fauna e Prestígio: uma história dos tempos antigos… 

Por Paulo César Simões-Lopes – Dpto de Ecologia e Zoologia – UFSC

Fonte: Artes Visuais: 1995 | Fabio Colombini.

Como já disse anteriormente, somos bons nisso… Somos eficientes. Nossa fama não é a de um “exterminador do futuro”, …somos exterminadores do presente, mas desde quando? 

Há um deserto muito seco, talvez o mais seco do mundo e também muito salgado. Chama-se Atacama, no Chile, e é um lugar absurdamente lindo. Quando passei por lá, não sabia que outros mistérios ele guardava, mas agora sei. Sua secura e seu sal o tornaram um testemunho e um repositório de nossa passagem desastrosa pelo mundo. 

Penas vermelhas, amarelas, azuis e verdes, e também ossos, tendões, músculos e pele, permitiram que novas informações emergissem das areias finas e das rochas e do sal. Tudo perfeitamente preservado na forma de múmias animais. 

A ciência vem dando passos largos ultimamente. Vem se valendo de métodos como o dos isótopos estáveis de carbono e nitrogênio, do rádio carbono, da espectrometria de massa (AMS), da morfologia comparada e da arqueogenômica que, em outras palavras, é o estudo do DNA antigo. Pois bem, os Cientistas Descobriram Que1 …lindas araras e papagaios amazônicos eram traficados pelos povos atacamenhos antigos pré-colombianos e depois pelos incas, aproveitando as caravanas de lhamas, nosso camelídeo domesticado. Era uma epopeia e tanto cruzar os passos altíssimos da cordilheira andina, transportando uma carga viva em direção a um destino improvável. As aves eram capturadas nas selvas do Peru, Bolívia e Brasil e traficadas para o norte do Chile. Os traficantes tinham de alimentar essa carga viva e improvisar novos alimentos não naturais para espécimes cativos.

E quem pagava por isso? Ora, os ricos e abonados senhores e senhoras dessas paragens… Os mesmos que hoje se refestelam com cintos de couro de crocodilo e casacos de pele de foca ou arminhos. Penas coloridas eram como os nossos “diamantes de sangue” do renomado filme de Hollywood. Elas eram sinal inequívoco de prestígio e liderança, riqueza e status espiritual [1] e eram traficadas das florestas tropicais amazônicas e levadas ao altiplano e ao deserto seco do outro lado, onde as penas eram usadas como ornamentos, chapéus, vestuário, toucados e guias para flechas. Mais importante ainda, viravam mascotes nos enterros rituais, o chamado prestígio depois da morte.

E foi porque o deserto era seco e salgado que as penas, ossos, tendões e peles de aves se preservaram em cerca de 269 tumbas arqueológicas de cinco diferentes localidades no deserto. E os métodos científicos de que falamos acima permitiram saber que eram pelo menos sete espécies de araras e papagaios, dentre elas a arara-vermelha (Ara macao), arara-canindé (Ara ararauna), papagaio-verdadeiro (Amazona aestiva), papagaio-moleiro (A. farinosa), papagaio-campeiro (A. ochrocephala), loro-verde (A. mercenarius), aratinga (Psittacara mitratus). Esses achados também permitiram saber que os animais eram mantidos num cativeiro torturante como “fábricas de penas” para seus senhores humanos e, para tanto, tinham as asas quebradas, as pernas amarradas e as garras e bicos cortados. Permitiram também saber que essas caravanas datam de pouco antes do descobrimento das Américas (1100 a 1450 CE) * e que viajaram mais de 500 km por diferentes rotas comerciais (as vezes até 900km!).

Enfim, …sim nós somos exterminadores do presente e do passado. Naquele tempo, assim como hoje, penas vermelhas, riqueza e tráfico de fauna se misturam. E sabemos tudo isso, por que os cientistas são curiosos compulsivos e inovadores e porque o deserto era para lá de seco.

* CE (Common Era ou Current Era) é uma alternativa para DC (Depois de Cristo) ou AD (Anno Domini, ano do senhor).

Acesse o artigo original no link abaixo:

1- Pre-Columbian transregional captive rearing of Amazonian parrots in the Atacama Desert.

Reflexões em tempos de pandemia: cientistas são cidadãos e a ciência pode ser cidadã

Por Kelmer Martins da Cunha & Elisandro Ricardo Drechsler dos Santos,  Depto. BOT-CCB/UFSC

Você já viu um cogumelo com deformação por causa de poluição? Na figura 1 são mostrados cogumelos “saudáveis” (imagem da esquerda) e cogumelos com uma deformação (imagem da direita) causada por gases poluentes da queima de diesel. Essa história é bem interessante e vem lá da Austrália. Um grupo de cidadãos voluntários, de uma associação que monitora espécies ameaçadas de extinção, acompanhou as anomalias na formação de cogumelos da espécie Hygrocybe reesiae. O caso foi parar no senado australiano, que considerou que a má qualidade do ar na área, além de colocar em risco a saúde humana daquela comunidade, também representava um risco para fungos ameaçados de extinção.

Figura 1: Cogumelos de Hygrocybe reesiae, saudáveis na esquerda e com deformação na direita. (fonte: Irga, et al., 2018).

Pois é, todo mundo sabe que os cientistas vêm alertando há décadas sobre as ameaças e extinções de espécies, mas poucos sabem que cidadãos voluntários podem se envolver em defesa da biodiversidade. Esse é um belo exemplo de ciência cidadã, onde cidadãos se engajam para ajudar a construir o conhecimento científico.

Temas como “crise da biodiversidade” e “extinção em massa do antropoceno” são assuntos atuais e carregam consigo uma realidade cruel e ainda ignorada pela maioria. Você sabia que, a cada hora, de duas a cinco espécies são extintas em florestas tropicais? Exatamente, são espécies Continuar lendo

Árvores atraem biodiversidade e protegem espécies raras e ameaçadas de extinção

Por Elisandro Ricardo Drechsler-Santos                                                                               Depto. de Botânica e PPGFAP – UFSC

Fonte da imagem: Coletivo Gaia Brasília 2014.

Fonte da imagem: Coletivo Gaia Brasília 2014.

Qual o segredo das árvores? Elas são nucleadoras, no sentido em que naturalmente cada árvore forma associações diretas ou indiretas com centenas, talvez até milhares de espécies em florestas preservadas ou degradadas. Em setembro de 2016 foi publicado, na prestigiada revista da Academia Americana de Ciências – PNAS, um estudo de avaliação da biodiversidade na Costa Rica, Continuar lendo