Um tesouro invisível no leite materno

Por Fabienne Ferreira, Dpto de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia da UFSC

Você provavelmente já ouviu falar que o aleitamento materno apresenta inúmeros benefícios à saúde do bebê, certo? Não pode ser à toa que diversos órgãos em saúde, como a Organização Mundial de Saúde (OMS), recomendam o aleitamento materno exclusivo até os seis meses de idade da criança. O leite materno já é conhecido a muito tempo por fornecer todos os nutrientes necessários nos primeiros meses de vida do bebê, além de conter anticorpos que ajudam a proteger a criança contra diversas doenças. Evidências científicas mais recentes apontam benefícios adicionais do leite materno, como o auxílio no desenvolvimento do sistema imunológico (sistema de defesa) do bebê, que parece impactar positivamente em etapas posteriores da sua vida. Talvez seja por isso que alguns estudos apontam que crianças alimentadas com leite materno tendem a apresentar menores taxas de alergias, diabetes e asma ao longo da vida. 

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Sobre lobos, cães e homens… uma origem da domesticação

Por Paulo César Simões-Lopes – Dpto de Ecologia e Zoologia – UFSC

Há vários lobos dentro de mim, mas todos eles uivam para a mesma lua”, teria dito Virgílio. Os lobos traduzem nossos medos, que são muitos, no mais das vezes medos do mundo natural. Para muitos, natureza é só aquela que pode ser modificada, transformada, subjugada. E com os lobos não foi diferente. Nossa relação com eles não é nada nova, tampouco amistosa. Foram caçados, comidos, sequestrados e por fim modificados. Precisávamos de sentinelas gratuitas para nossos acampamentos quando ainda éramos caçadores-coletores nômades. Precisávamos de alguém com um bom focinho para seguir as trilhas olfativas de nossas presas. Precisávamos de carne quando tudo mais faltasse.

E foi assim que roubamos filhotes de lobos ou matamos suas mães zelosas para cria-los como parte de nossa família humana. Logo ficaríamos com os lobinhos mais mansos e abateríamos os mais ferozes. De geração em geração, dobramos seu temperamento, sua autonomia, sua iniciativa. Mas quando esse lento processo começou? Quando os lobos viraram cães? Onde foi que essa transformação ocorreu pela primeira vez? Teria ela ocorrido em diferentes locais ao mesmo tempo?

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A COVID-19 não é apenas uma gripezinha! Lembraremos disso?

Por Daniel Fernandes, Departamento de Farmacologia UFSC

Logo no início da pandemia, ficou claro que a COVID-19 deixa marcas! Várias pessoas infectadas pelo vírus SARS-CoV-2, mesmo as que não foram hospitalizadas, apresentam sequelas a médio e longo prazo que impactam a saúde, como, por exemplo, fraqueza e cansaço. 

E as sequelas vão muito além de problemas pulmonares que foram a grande preocupação inicial. Inclusive, já abordamos aqui as sequelas cardíacas causadas pela COVID-19 (Nosso coração será o mesmo após a COVID-19?)

Agora o Cientistas da Universidade de Oxford Descobriram Que a COVID-19 pode afetar o nosso cérebro!  

“Coronavírus pode viajar para seu cérebro através de seu nariz” – animação por @design_cells no Instagram.

Os pesquisadores tiraram proveito de um banco de dados biomédico de grande escala, que reúne informações de saúde de aproximadamente meio milhão de pessoas no Reino Unido (www.ukbiobank.ac.uk). Logo depois do início da pandemia, em 2020, os pesquisadores convidaram participantes que já tinham realizado um exame de ressonância magnética (exame de alta precisão e qualidade no detalhamento das imagens do corpo) antes do início da pandemia, para que voltassem ao laboratório para repetir o exame.

Com esta estratégia, eles conseguiram avaliar as imagens (antes e depois) de 785 pessoas com idade entre 51 e 81 anos. Destes, 401 testaram positivo para COVID-19 no período entre as duas sessões de exame. Os 384 indivíduos restantes não foram infectados e serviram como controle. O grupo de pessoas que testou positivo para COVID-19 apresentou uma maior perda de substância cinzenta em áreas do cérebro associadas ao paladar e olfato. Os cientistas demostraram também que estas pessoas que foram infectadas pelo vírus apresentavam um maior dano tecidual em áreas conectadas ao córtex olfativo primário, outra área relacionada ao olfato. Análises do cérebro inteiro confirmaram esses resultados e mostraram uma atrofia difusa em outras regiões do cérebro.

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Nosso coração será o mesmo após a COVID-19?

Por Daniel Fernandes, Departamento de Farmacologia UFSC

A atual pandemia de COVID-19 tem sido um dos maiores desafios da nossa sociedade. E agora, passados alguns anos de seu início estamos percebendo que independentemente da gravidade do quadro inicial de COVID-19 muitas pessoas apresentam acometimentos depois da fase aguda. Esta tem sido uma grande preocupação, já que muitas pessoas depois do quadro de COVID-19 têm muita dificuldade de retornar as suas atividades usuais. Esta condição tem sido chamada de “síndrome pós-COVID” ou “COVID longa”.

Em um estudo publicado recentemente Cientistas Descobriram Que após a recuperação da fase aguda da doença, há um aumento no risco de desenvolvimento de uma série de problemas cardiovasculares como arritmias, infarto do miocárdio e insuficiência cardíaca. E o que é mais preocupante, os riscos aumentados são evidentes mesmo entre aquelas pessoas que não foram hospitalizadas com COVID-19 durante o período agudo da doença. 

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A Guerra dos Tronos. Quem é esse tal Homem Dragão?

Por Paulo César Simões-Lopes, Dpto de Ecologia e Zoologia, UFSC

Nos vemos como uma espécie apartada do todo, o apogeu da evolução, o pináculo. É uma ideia colorida, mas é também uma fantasia tola a qual estamos apegados. Com quem partilhamos o trono de nossa longa linhagem evolutiva? Quem é nossa espécie irmã? Aquela com a qual temos um ancestral comum?

Esqueleto Neandertal

O mais nobre e conhecido de nossos parentes imediatos, o neandertal, reinou livre e desimpedido, por anos, ocupando o lugar de honra ao nosso lado. Aí estava nossa espécie irmã, um tanto robusta para nossos padrões soft: narizes largos, ossos pesados, supercílios proeminentes, pernas arqueadas. Então, lá por 2008, descobriu-se os denisovanos. Um novo pretendente ao trono? Uma variação asiática do neandertal? Fica a dúvida…

Agora voltemos quase cem anos para encenar uma nova peça em três atos. 

Crânio do Homo erectus 

Ato número 1: em 1933, durante a construção de uma ponte no Rio Songhua, no nordeste da China, um trabalhador comum recuperou um crânio bastante completo, mas vivia-se a invasão japonesa na Manchúria e o seu descobridor resolveu escondê-lo longe dos olhos do odioso invasor. O que levou este homem a ver ali uma preciosidade permanece um mistério, mas anos antes se havia anunciado, com toda pompa, a descoberta do tal homem de Pequim (Homo erectus).

Ato número 2: vem a Segunda Guerra Mundial e o sanguinário extermínio do povo chinês pelo Império japonês. A China é destroçada de ponta a ponta. Depois, tomou fôlego o movimento comunista de Mao, a revolução cultural e, por fim, a China partiu da pré-história para o mundo moderno num salto veloz.

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As Marcas do Cancro (câncer) em formato “mind map”

Por Rita Zilhão – Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, Portugal

Neste texto, não pretendo escrever sobre “Os cientistas descobriram que…”, isto é, algo específico, mas sim realçar a importância de se proporem estruturas conceptuais e didáticas, para condensar e “arrumar” assuntos complexos associados a uma ampla variedade de descobertas e dados, como é o caso dos intrincados fenótipos e genótipos dos diferentes tipos de cancro (câncer em português brasileiro).

Em 2000 Hanahan and Weinberg escreveram um artigo de revisão(1) onde propunham que um conjunto de capacidades funcionais teriam de ser adquiridas para que as células fizessem o seu caminho da normalidade para estados de desenvolvimento neoplásico e formação de tumores malignos. Esse conjunto de capacidades, a que chamaram Marcas do Cancro (“Hallmarks of Cancer”), partilhadas por todos os tipos de células cancerígenas ao nível do fenótipo celular, estabelece uma estrutura conceptual que racionaliza os complexos e diferentes tipos de tumores humanos, assim como as suas variantes. Inicialmente, começaram por ser seis marcas distintas(1) abaixo enunciadas de uma forma mais detalhada: 

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Bloqueio do hormônio sexual FSH reduz o desenvolvimento do mal de Alzheimer em mulheres

Por Ricardo Castilho Garcez, Departamento de Biologia Celular, Embriologia e Genética – UFSC

Modificado a partir de Flores, et al., 2018

O mal de Alzheimer é uma doença bastante conhecida por causar perda de memória. Há um tempo pesquisadores têm observado que mulheres, após a menopausa, apresentam maior risco de desenvolver o mal de Alzheimer. A pergunta até então sem resposta era: qual a relação da menopausa com o mal de Alzheimer?

A menopausa é o período em que a mulher para de produzir óvulos e de menstruar. Isso tudo é causado por uma grande mudança na produção dos hormônios sexuais. Nesse período, a produção de hormônios como estrogênio e progesterona caem, já o hormônio folículo estimulante (FSH) e o hormônio luteinizante (LH) sobem. Esses dois hormônios, FSH e LH, são produzidos pela hipófise, uma glândula localizada na base do sistema nervoso central. Inicialmente, a redução nos níveis de estrogênio foi sugerida como uma possível causa do aumento de mulheres com mal de Alzheimer na menopausa, mas seu papel permanece controverso entre os pesquisadores. 

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