Por Michelle Tillmann Biz – Departamento de Ciências Morfológicas – Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)
A curcumina é o principal bioativo extraído da raiz da Curcuma longa, planta conhecida popularmente como cúrcuma ou açafrão-da-terra. Seu uso remonta a mais de dois mil anos na culinária asiática, especialmente na Índia, onde constitui ingrediente essencial do curry, conferindo sabor, aroma e coloração dourada aos alimentos. Além de seu papel gastronômico, a cúrcuma foi amplamente incorporada à medicina tradicional ayurvédica e à medicina chinesa, empregada no tratamento de distúrbios digestivos, inflamações e desordens hepáticas.
A partir da segunda metade do século XX, com o avanço da farmacologia e da biologia molecular, a curcumina passou a ser estudada sistematicamente, revelando propriedades anti-inflamatórias, antioxidantes, antimicrobianas e antitumorais.
Nos últimos anos, a curcumina tem se destacado como um candidato terapêutico versátil, explorado em diferentes áreas médicas, incluindo oncologia, neurologia, doenças metabólicas e, mais recentemente, na odontologia regenerativa. É exatamente esta faceta na odontologia regenerativa que vamos explorar neste texto.
A polpa dentária é um tecido bastante delicado que fica no interior do dente, e é ela que é dotada da capacidade de reação biológica frente a uma inflamação/infecção. O ideal é que no tratamento da polpa, seja qual for a agente biológico utilizado, possa favorecer a diferenciação de odontoblastos (células produtoras de dentina) e a produção de nova dentina, restabelecendo a fisiologia deste tecido. Isso é tão importante para a manutenção deste tecido que já tratamos aqui no CDQ de novas opções de substâncias para este fim, como a sinvastatina (leia aqui) e o tideglusib (leia aqui). E recentemente a curcumina tem chamado a atenção de biologistas pulpares.
Neste artigo científico de estudo, um grupo de cientistas buscou avaliar os efeitos da curcumina e da tetraidrocurcumina (THC) sobre células da polpa dentária humana, visando identificar seu potencial regenerativo. Células primárias de polpa dentária foram tratadas com diferentes concentrações de curcumina e THC e testada em relação à viabilidade celular e perfil de modulação gênica (modulação do que a célula irá produzir).
Com isso, os Cientistas Descobriram Que a concentração de 1 µM de curcumina ou THC manteve a viabilidade celular acima de 90% e ativou a via de sinalização Wnt (comunicação celular via proteína Wnt), importante via de sinalização do processo de regeneração. Esta resposta é de extrema importância, visto que o agente terapêutico utilizado clinicamente na atualidade (o hidróxido de cálcio) em seu primeiro efeito sobre as células, causa uma alcalinização que provoca a morte celular, ou seja perda inicial de células para posteriormente ocorrer a regeneração.
Ainda, a curcumina promoveu aumento da atividade metabólica, síntese de proteínas e resposta ao estresse oxidativo. Já a THC regulou processos relacionados à matriz extracelular, apoptose e angiogênese (formação de novos vasos sanguíneos). Esta regulação de processo de produção de matriz extracelular é importante, visto que dela deriva a formação de nova matriz dentinária (tecido que forma o dente) que é tão desejada para uma medicação pulpar. Ainda, a angiogênese seria fundamental para a permanência da vitalidade deste tecido.
Ao que parece, a curcumina e a tetraidrocurcumina apresentam propriedades citoprotetoras e regenerativas em células da polpa dentária, indicando serem potenciais agentes naturais em estratégias de regeneração tecidual em odontologia. Entretanto, ensaios adicionais, especialmente in vivo, são necessários para confirmar sua aplicabilidade clínica.
Para saber mais:
Ainda,
Sinvastatina – https://www.jendodon.com/article/S0099-2399(18)30093-1/fulltext
Tideglusib – https://journals.sagepub.com/doi/full/10.1177/00220345211020652