Abaixo à corrupção tumoral!!: O retorno

Por Bruno Costa da Silva – Champalimaud Centre for the Unknown/Lisboa – Portugal

Fonte: istock

Em sequência ao texto “Abaixo à corrupção tumoral!!”, publicado no CDQ em outubro de 2013, falaremos nessa ocasião sobre o recente artigo do grupo do Dr. Ingo Ringshausen, da Universidade de Cambridge, publicado em 15 de janeiro de 2020 na revista americana Science Translational Medicine. Neste trabalho, Cientistas Descobriram Que o uso de drogas dirigidas às células não tumorais podem resultar em respostas melhores e mais prolongadas contra tumores hematológicos.

Desenvolvimentos contínuos em técnicas cirúrgicas têm resultado em aumentos importantes na sobrevida e até mesmo na cura de diversos tipos de tumores “sólidos”, ou
seja, tumores que têm sua origem em quaisquer órgãos com forma e estrutura definida (ex. próstata, mama, pulmões, intestino, fígado, pele, cérebro…). Entretanto, na maioria dos casos, procedimentos cirúrgicos são ineficientes ou mesmo impraticáveis quando os tumores apresentam espalhamento para outros órgãos. Outro caso em que cirurgias não são uma alternativa são os tumores “líquidos”, tais como os tumores sanguíneos.

Para estes dois últimos exemplos, a utilização de quimioterapias, drogas comumente injetadas na circulação sanguínea, acaba por ser a estratégia de tratamento escolhida. Por entrarem em contato com potencialmente todas as células do corpo, busca-se idealmente que estas drogas possuam ação preferencial em células tumorais e pouco ou nenhum efeito em células saudáveis. Mesmo com o desenvolvimento de drogas modernas mais específicas, são frequentes os efeitos colaterais em células saudáveis e muitas vezes nocivos à saúde. Por este motivo, há um esforço contínuo no desenvolvimento de novos meios de otimizar a entrega dessas drogas a células tumorais.

Outro problema frequente é que drogas anti-tumorais podem, durante ou após o tratamento, se tornarem ineficazes, permitindo que os tumores se restabeleçam. Estes são comumente causados pela morte de apenas uma parte das células tumorais. Outra parte são células resistentes que podem formar novos tumores em um momento posterior da doença. Outra causa de resistência às terapias provém da ação de células não tumorais associadas a tumores. Essas células normais podem tanto consumir as drogas em questão, quanto enviar sinais às células tumorais tornando-as menos suscetíveis a drogas antitumorais.

Com esse conjunto de ideias em mente, membros do grupo do Dr. Ringshausen descobriram que células normais associadas à tumores, chamadas de células estromais, emitem sinais dependentes de uma proteína chamada “Proteína Quinase C-Beta” ou PCK-β para células tumorais de linfomas, tornando-as mais resistentes à ação de drogas antitumorais. Voltando à ideia geral do texto do CDQ de 2013, de desenvolver tratamentos contra células não tumorais corrompidas que favorecem células tumorais, os cientistas lançaram mão do uso de uma droga desenhada para inibir PCK-β, chamada de Enzastaurina. Curiosamente esta droga, originalmente desenvolvida para matar células tumorais, foi um grande um fracasso durante os seus testes clínicos em pacientes oncológicos. Um dos grandes motivos deste fracasso foi ter como único alvo da ação terapêutica as células tumorais. Interessantemente, ao tratar animais de laboratório com combinações de Enzastaurina e outras drogas antilinfoma e leucemias, os investigadores obtiveram resultados encorajadores de diminuição do número e tamanho dos tumores e de aumento de sobrevida dos animais estudados.

Este resultado pode servir como base não apenas para o desenvolvimento de novas estratégias terapêuticas que tirem proveito de ações de drogas em células não tumorais para combater o crescimento de tumores líquidos, mas também para melhorar a eficiência de tratamentos em tumores sólidos.

Para acessar o artigo original, clique abaixo:

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