Por Paulo César Simões-Lopes – Departamento de Ecologia e Zoologia – UFSC
Antigamente se imaginava que o borrifo das baleias era como uma chaleira fervendo. Era um tempo de monstros e mitos. Mas a verdade é que o ar quente dos pulmões ao entrar em contato com a atmosfera fria se transforma em vapor, principalmente quando forçado pela pequena abertura das narinas da baleia. Mas e o Microbioma?
Esse é o ponto em que inicia o nosso post. A baleia franca do Atlântico Norte (Eubalaena glacialis) foi caçada desde tempos imemoriais. Na idade do bronze, os nórdicos já matavam essas baleias em suas canoas estreitas com vários remadores. Depois vieram os bascos e a saga continuou, literalmente, por milhares de anos numa matança contínua. Hoje restam apenas 370 animais!
Depois da proibição da caça industrial, outras espécies de baleias vêm se recuperando a seu modo, sejam jubartes, azuis ou francas do Sul, mas não as francas dos Norte. E foi assim que o estudo do Microbioma entrou em cena.
Nossa respiração diz muito de nós. Ela não comunica apenas o nosso hálito, mas também a nossa saúde. Foi assim que Os Cientistas Descobriram Que era possível rastrear a saúde das baleias, simplesmente, coletando um pouquinho dos seus borrifos ou suspiros. Partiram com seus barcos ágeis e hastes compridas portando uma redinha, ou melhor dizendo, um swab ou cotonete estéril com ponta de algodão ou espuma, onde as secreções da respiração ficariam aprisionadas. Mas, é claro, uma invenção leva a outra e então vieram os drones zunindo logo acima das baleias, portando uma plaquinha esterilizada para coletar aquele esplêndido borrifo em forma de nuvem.
Carolyn A. Miller e seus vários colegas operaram drones voando rasante a apenas dois metros acima das baleias e coletaram os borrifos de 85 baleias francas do Atlântico Norte [1]. Isto ocorreu na Baía de Cap Cod nos Estados Unidos. Também voaram numa altura maior para estimar, por fotogrametria, o quanto as baleias estavam saudáveis (fazendo uma leitura do escore corporal). Nas placas coletoras estavam mais de uma dezena de espécies de bactérias compondo um microbioma bastante esclarecedor. Elas foram identificadas pela técnica do sequenciamento do RNA dos ribossomos.
Logicamente, a respiração das baleias diz muito sobre elas e o principal é que o microbioma exalado reflete, diretamente, a saúde das baleias. Baleias saudáveis e baleias magras, em outras palavras, bem ou mal nutridas, têm um microbioma bacteriano diferente. Isto é, se você é uma baleia e teve a sorte de comer bastante krill naquele verão boreal ou se, pelo contrário, aquele foi um ano para lá de ruim por conta de efeitos climáticos, você ficará mais ou menos suscetível.
Pelo menos quatro espécies de bactérias foram típicas apenas de baleias malnutridas, outras 11 apenas de baleias saudáveis e duas apareceram em ambos os tipos. Sendo assim, a microbiota pode ser usada como um biomarcador de saúde e isto é fundamental para uma espécie que caminha (ou nada) perigosamente perto da extinção desde 1930. Por que ela quase não tem se recuperado? São mais de 90 anos sem os efeitos deletérios da caça?
A cada ano aprendemos um pouco mais, aprendemos que não basta apenas parar de matá-las. Conservação é um desafio mais complexo. Das 370 baleias francas do Atlântico Norte, talvez apenas 200 ou 250 sejam animais maduros e, como podemos ver aqui, nem todos estão saudáveis e robustos. Talvez por isso ela continue Criticamente Ameaçada (CR) pelos critérios da IUCN (The IUCN Red List of Threatened Species) [2] e seus estoques continuem a encolher.
Esse é o ponto: continuaremos agindo como os “exterminadores do presente”? Ou os alertas conservacionistas e provas científicas podem mudar o rumo das coisas?
Glossário:
- Fotogrametria: técnica de extrair medições de fotografias e imagens digitais a partir do alto.
- Sequenciamento do gene do RNA ribossômico: técnica da biologia molecular, utilizada para a identificação taxonomia e análise filogenética de microrganismos como as bactérias.
- Krill: pequenos crustáceos que são a base da cadeia alimentar das águas polares e alcançam uma biomassa impressionante.
Para saber mais:
[1] Miller, C. A., Pirotta, E., Grim, S., Moore, M. J., Durban, J. W., Tyack, P. L., … & Apprill, A. (2025). Respiratory microbiomes reflect whale health. The ISME Journal, 19(1), wraf231.
[2] Cooke, J.G. 2020. Eubalaena glacialis. The IUCN Red List of Threatened Species 2020: e.T41712A178589687.
Acessado em 01 December 2025.


