Como uma bactéria pode ajudar a curar feridas difíceis

Por Fabienne Ferreira – Departamento de Microbiologia – Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

Feridas crônicas são aquelas que demoram muito tempo para cicatrizar ou que não cicatrizam completamente. Ao contrário de cortes ou arranhões comuns, que costumam sarar em poucas semanas, as feridas crônicas podem persistir por meses ou até anos. Elas geralmente ocorrem em pessoas com condições de saúde como diabetes, onde a circulação sanguínea é comprometida, dificultando o processo natural de cura. Estas feridas são um grande desafio para a saúde, pois podem levar a problemas graves e até a morte. Só nos Estados Unidos, elas afetam cerca de 6 milhões de pessoas por ano. Por isso, cientistas estão sempre buscando novas e melhores maneiras de tratá-las. 

Figura 1 – Placa de cultivo de bactérias

Recentemente, eles descobriram algo interessante sobre bactérias que vivem nas feridas crônicas, usando como exemplo as úlceras nos pés de diabéticos: há algumas espécies que quase sempre estão associadas a infecções das feridas, como Staphylococcus aureus. No entanto, há espécies, como Alcaligenes faecalis, que estão frequentemente presentes em feridas crônicas, mas raramente causam infecções. A partir desta observação, os cientistas resolveram testar se essa bactéria poderia ajudar a curar feridas. 

Continuar lendo

Drogados até debaixo d’água? “Cocaine Sharks”

Por Paulo César Simões-Lopes – Departamento de Ecologia e Zoologia – Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

Se você pensava que o tubarão bico-fino era um sujeito de classe, gente boa ou isentão, sente-se e beba um copo d’água. Viver longe da sociedade de consumo nem sempre irá salvá-lo de ser “contaminado”, digamos assim, por algo que você não desejava. 

Arquivos tubarão-bico-fino-brasileiro - Perfil Brasil
Figura 1 – Tubarão bico-fino

Todos sabem que a cocaína é uma droga potente, um estimulante do sistema nervoso central. Também sabem que parte do composto vem de uma planta, posteriormente misturada a outros produtos químicos. Alguns sabem que a cocaína é a segunda droga ilegal mais consumida no mundo e que seu consumo cresce exponencialmente. Vinte e dois por cento dos consumidores dessa droga residem na América do Sul e o Brasil é o segundo maior consumidor da região1, mas justo aí os tratamentos médicos alcançam índices de apenas 50% dos necessitados. No entanto, bem poucos sabem até onde o tráfico conseguiu chegar. 

Pois bem, os Cientistas Descobriram Que tubarões bico-fino, Rhizoprionodon lalandii, andaram ingerindo cocaína2. Eram tubarões que habitavam o entorno da Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Ok, voltemos só um pouquinho atrás. A contaminação ambiental por cocaína já vinha sendo acompanhada, e havia se mostrado tóxica em moluscos, pequenos crustáceos e peixes ósseos, interferindo no metabolismo dos lipídeos e na organização celular desses organismos aquáticos. Mais ainda, esse composto pode “bioacumular” devido à ingestão de presas contaminadas.

Continuar lendo

A evolução da terapia com RNA mensageiro: tecnologia avançada para o rejuvenescimento da pele

A evolução da terapia com RNA mensageiro: tecnologia avançada para o rejuvenescimento da pele

Por Marco Augusto Stimamiglio – Instituto Carlos Chagas, Fiocruz Curitiba – Paraná 

O desenvolvimento de terapias baseadas em RNA mensageiro (mRNA) tem se destacado cada vez mais na medicina moderna. Recentemente, as vacinas contra a COVID-19 marcaram o primeiro uso generalizado desta terapia. O uso do mRNA na terapia é interessante porque esta molécula atua como intermediária no processo de tradução da informação do DNA até as proteínas, as quais desempenham uma variedade de funções no nosso organismo. Porém, sua eficácia depende de sistemas de entrega do mRNA que garantam a tradução segura, eficaz e estável deste em proteínas funcionais nos tecidos. Atualmente, as formulações dos sistemas de entrega tradicionais utilizam pequenas partículas lipídicas (LNPs, do inglês, Lipid Nanoparticles) para assegurar uma distribuição bem-sucedida do mRNA. Entretanto, a tradução clínica das terapias de mRNA ainda é limitada devido aos eventos adversos associados a componentes das LNPs, que causam irritação e inflamação. Além disso, as LNPs são difíceis de direcionar para o tecido específico cuja intervenção é desejada.

Vesículas extracelulares carregando conteúdo sendo liberadas por célula
© ISTOCK.COM, Meletios Verras

Recentemente, um estudo inovador, publicado na renomada revista científica Nature Biomedical Engineering, trouxe avanços significativos ao utilizar vesículas extracelulares (VEs) para entregar o mRNA codificante da proteína colágeno tipo I (COL1A1) em tecidos dérmicos, oferecendo novas perspectivas para o rejuvenescimento da pele. As VEs são partículas liberadas por células cuja função é a comunicação celular. Elas são capazes de transportar moléculas, como o mRNA, de forma eficaz e estável, assim como possuem sinais de direcionamento bastante efetivos. Contudo, o uso clínico das VEs também apresenta limitações.

Continuar lendo