Música sertaneja: um Brasil que dialoga com “o outro”

 Gustavo - FiguraTonico e Tinoco elogiaram os militares; Chitãozinho e Xororó, Leandro e Leonardo e Sula Miranda apoiaram Collor; Caetano Veloso produziu e interpretou a trilha sonoro de Dois Filhos de Francisco. O CDQ convidou o historiador Gustavo Alonso para nos explicar como a percepção do bom e do mal gosto tem sido construída por artistas, universidade e mídia ao longo da nossa história

Por Gustavo Alonso – UFPE

Em 2015, publiquei o livro “Cowboys do asfalto: música sertaneja e modernização brasileira”, pela editora Civilização Brasileira. Trata-se de obra sobre a história da música sertaneja no Brasil. Ao contrário do que pode parecer, deu muito trabalho escrevê-lo, pois a música sertaneja está repleta de mitos e falsas questões, a despeito da grande quantidade de informação bastante dispersa. Quando comecei minha pesquisa,em 2007, deparei-me com um problema frequente: o desinteresse geral das elites culturais pela música sertaneja. Constatei também que nunca um doutor defendera uma tese sobre a música sertaneja no Brasil. Os poucos livros sobre o assunto reproduziam uma visão esquemática, muito comum na imprensa, afirmando que a música sertaneja era um produto da famigerada “indústria cultural”, que o gênero era uma deturpação da música rural “autêntica” e que era uma música que “alienava” as camadas populares, privando-as da “verdadeira” e “boa” cultura nacional.

Inicialmente eu queria pesquisar aquele período em que a música sertaneja se nacionalizou, ou seja, a partir de 1989, quando canções como “Entre tapas e beijos”, “Evidências”, “Nuvem de lágrimas”, “É o amor”, entre dezenas de outras, estouraram do Oiapoque ao Chuí. Eu me surpreendia com o fato que na época muitos críticos, artistas, empresários, produtores (especialmente da MPB) viam o gênero de forma muito negativa.

O que me incomodava era que estes argumentos acusadores não davam conta do problema. Eram por demais simplistas e soavam repetitivos. Nos anos 1960, Roberto Carlos e a Jovem Guarda também foram acusados de serem produtos da “indústria cultural”, de deturparem a música brasileira e de serem supostamente associados ao governo da época. Trata-se de uma análise ingênua que, pela negativa, não conseguia dar conta da problemática. Assim como Roberto Carlos, a música sertaneja dialogou com um Brasil profundo, que com frequência não é sequer captado pelos radares de nossas elites culturais letradas.

Eu quis então explicar que o fenômeno era mais complexo. Descobri então que aquele momento da música sertaneja, nos anos 90, era apenas a ponta do iceberg de uma história de misturas e incorporações.

A primeira gravação de música rural no Brasil aconteceu em 1929, quando o jornalista e folclorista Cornélio Pires, ao constatar que nenhuma gravadora se interessava em lançar um disco, resolveu ele próprio produzir, gravar, lançar, divulgar e distribuir seu produto. A partir daí a música rural começou a circular com crescente sucesso regional. Artistas como João Pacífico, Tonico & Tinoco, Athos Campos, Nhô Pai, Mario Zan e outros se destacaram.

E eis que em 1952 aconteceu algo histórico na música sertaneja. Neste ano, a dupla Cascatinha & Inhana gravou uma versão de “Índia”, uma guarânia dos paraguaios José Asunción Flores e Manuel Ortiz Guerrero. Do outro lado do compacto, outro clássico: “Meu primeiro amor”. Eram duas guarânias que se tornaram sucessos e marcaram o início da entrada de gêneros estrangeiros na música rural. Ao longo daquela década, entraram também o bolero, o rasqueado, e o corrido mexicanos, e também o chamamé argentino.

Quando isto aconteceu, uma parte da música rural adotou a nova estética que dialogava com os sons estrangeiros. Eles foram crescentemente associados ao rótulo “sertanejo”. Outra parte reagiu a essa prática.

Em 1969, outra dupla fez história: Leo Canhoto & Robertinho. Foram os primeiros a misturar guitarra, bateria, baixo e teclado na música sertaneja, trazendo influências dos Beatles e da Jovem Guarda na música sertaneja. Outra dupla muito famosa, Milionário & José Rico, levou adiante a influência do rasqueado, corridos boleros e guarânias avante nos anos 1970 e 1980, junto com Trio Parada Dura, outro grupo de enorme sucesso. Esses artistas foram muito criticados pelos detratores do gênero por aceitar essas influências “importadas”. No meio dessa disputa, a dupla Chitãozinho & Xororó foi a primeira a vender um milhão de discos, tudo por causa de uma guarânia chamada “Fio de cabelo”, sucesso de 1982.

Nos anos 1980, o brega entrou com muita força na música sertaneja, assim como o country americano. As canções de Leandro & Leonardo foram muito influenciadas pela temática brega. Músicas como “Entre tapas e beijos”, que esgarçavam a poética do amor melodramático, se tornaram sucesso nacional. A música sertaneja tornou-se um produto consumido nacionalmente, rompendo as antigas amarras regionais.

De certa forma esse é um processo que ocorre até hoje. Basta lembrarmos o caso da música “Ai se eu te pego”. O refrão foi composto como um funk; os versos da canção foram completados como um forró pé-de-serra gravada por várias bandas do Nordeste, inclusive algumas de tecnoforró. Mais tarde, a canção foi retrabalhada pelo sertanejo de Michel Teló, um cara que começou a carreira em bandas de bailes gaúchos no Centro-Sul do Brasil.

A música sertaneja nunca se furtou de dialogar com outros gêneros e outras realidades. Isso explica em grande parte seu sucesso nacional. A história da música sertaneja é, assim, parecida com a história do samba, da bossa nova, do rock nacional e do tropicalismo. Todos eles foram gêneros forjados a partir da incorporação de diferentes sonoridades de diversas origens.

De forma que o sucesso da música sertaneja se explica por sua dinâmica constitutiva, capaz de dialogar e incorporar o diferente, sintetizando-o com valores locais. A música sertaneja é uma das forças de nossa rica história nacional, capaz de lidar antropofagicamente com “o outro”.

Para aqueles que se interessarem em saber mais sobre os enigmas da música sertaneja na história do Brasil e da música brasileira, sugiro a leitura de “Cowboys do asfalto: música sertaneja e modernização brasileira”.

Análises do livro pela critica:

Para ler a sinopse do livro Cowboys do Asfalto: música sertaneja e a modernização brasileira, clique aqui

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