Como uma bactéria pode ajudar a curar feridas difíceis

Por Fabienne Ferreira – Departamento de Microbiologia – Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

Feridas crônicas são aquelas que demoram muito tempo para cicatrizar ou que não cicatrizam completamente. Ao contrário de cortes ou arranhões comuns, que costumam sarar em poucas semanas, as feridas crônicas podem persistir por meses ou até anos. Elas geralmente ocorrem em pessoas com condições de saúde como diabetes, onde a circulação sanguínea é comprometida, dificultando o processo natural de cura. Estas feridas são um grande desafio para a saúde, pois podem levar a problemas graves e até a morte. Só nos Estados Unidos, elas afetam cerca de 6 milhões de pessoas por ano. Por isso, cientistas estão sempre buscando novas e melhores maneiras de tratá-las. 

Figura 1 – Placa de cultivo de bactérias

Recentemente, eles descobriram algo interessante sobre bactérias que vivem nas feridas crônicas, usando como exemplo as úlceras nos pés de diabéticos: há algumas espécies que quase sempre estão associadas a infecções das feridas, como Staphylococcus aureus. No entanto, há espécies, como Alcaligenes faecalis, que estão frequentemente presentes em feridas crônicas, mas raramente causam infecções. A partir desta observação, os cientistas resolveram testar se essa bactéria poderia ajudar a curar feridas. 

Utilizando como modelo de estudo feridas crônicas de camundongos diabéticos, os cientistas descobriram que quando eles aplicaram Alcaligenes faecalis nas feridas dos animais, a cicatrização ocorreu já no terceiro dia de experimento, muito mais rápido que os animais aplicados com uma solução fisiológica sem bactérias, quando só ocorreu uma cicatrização parcial no 14º dia. Quando inoculadas com Staphylococcus aureus, as feridas não cicatrizaram mesmo após 21 dias de teste.

Para entender como Alcaligenes faecalis promove a cicatrização, os cientistas coletaram tanto amostras de pele das feridas dos camundongos quanto pedaços de pele descartadas de cirurgias realizadas em pacientes humanos diabéticos. Quando esta bactéria foi aplicada nas amostras, eles observaram que houve maior movimentação e multiplicação de células da pele, chamadas queratinócitos, que são importantes para fechar as feridas, recuperando a pele danificada. Os pesquisadores também notaram que essa bactéria reduz a produção de proteínas específicas que, em excesso, podem dificultar a cicatrização, como as metaloproteinases da matriz (MMPs).

Figura 2 – Esquema demonstrativo da ação de A. faecalis sobre a cicatrização. Proliferating cells: células proliferativas (queratinócitos); Wound edge: borda da ferida; Wound bed: base da ferida. White et al., 2024.

Esses resultados são animadores porque mostram que, em vez de promover infecções, a bactéria Alcaligenes faecalis ajuda a reparar a pele e acelerar o processo de cicatrização. Os cientistas acreditam que explorar como essas bactérias interagem com o corpo pode levar ao desenvolvimento de novas terapias para tratar feridas crônicas, especialmente para pessoas com diabetes. Assim, a pesquisa destaca a importância de entender as interações entre nosso corpo e as bactérias que vivem nele para encontrar novas maneiras de tratar feridas difíceis de curar.

Para saber mais:

White EK, Uberoi A, Pan JT, Ort JT, Campbell AE, Murga-Garrido SM, Harris JC, Bhanap P, Wei M, Robles NY, Gardner SE, Grice EA. Alcaligenes faecalis corrects aberrant matrix metalloproteinase expression to promote reepithelialization of diabetic wounds. Sci Adv. 2024 Jun 28;10(26):eadj2020. doi: 10.1126/sciadv.adj2020. 

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