Sorrir de novo: o uso de células tronco no tratamento da paralisia facial

Por Michelle Tillmann Biz – Dpto. de Ciências Morfológicas / UFSC

O nervo facial é um nervo periférico responsável por fornecer mobilidade para os músculos de expressão facial (que nos fazem sorrir, por exemplo) e do pescoço. Esse nervo possui um longo segmento extra-ósseo (fora da proteção de cavidade óssea) possuindo, nesse trajeto, uma localização superficial na face. Por isso, é comumente afetado por lesões traumáticas, causando paralisia facial, com implicações graves para os pacientes.

A regeneração bem sucedida desse tipo de lesão (de nervos periféricos) depende do suporte das células de Schwann (SC), células que formam a bainha de mielina. Após uma
lesão, essas células removem os fragmentos do nervo (pedaços de axônios* e de mielina**). Além disso, elas refazem a bainha de mielina e liberam moléculas importantes para a regeneração do nervo. Essas moléculas são chamadas de fatores neurotróficos e  o principal deles é o NGF. Contudo, a proliferação de SC já presente no corpo é insuficiente para regeneração neural e por isso muitos nervos acabam não regenerando. Uma alternativa seria adicionar células-tronco na lesão, para que novas SC fossem formadas e assim facilitar a regeneração.

Figura 1: Ilustração esquemática de um neurônio mielinizado.

Mas, para um bom resultado neste tipo de aplicação de células-tronco para a regeneração nervosa, é necessário usar células-tronco que consigam formar neurônios e SC. Assim, uma das fontes mais utilizadas para a regeneração nervosa tem sido as células-tronco provenientes de polpas dentárias, visto que possuem no seu interior células derivadas da crista neural, já denominadas neste blog como “o tesouro escondidos nos nossos dentes”. (leia aqui para relembrar!). Por terem se originado a partir da crista neural, estas células apresentam capacidade de formar neurônios e ainda produzem uma variedade de fatores neurotróficos (como o NGF) que promovem a migração e proliferação de SC, favorecendo um microambiente regenerativo.

Partindo desse princípio, Cientistas descobriram que… uma única aplicação de células-tronco da polpa dental humana (DPSC) é capaz de promover, em 14 dias, um efeito positivo na regeneração do nervo facial.

Como modelo de estudos, esses cientistas utilizaram ratos com uma lesão unilateral por esmagamento do nervo facial, divididos em dois grupos (grupo com lesão sem tratamento e outro com lesão seguido de aplicação de DPSC) e observaram os resultados durante 3, 7, 14, 21 e 42 dias após o tratamento. A regeneração do nervo facial foi analisada através da recuperação funcional do movimento dos bigodes dos ratos, análise histomorfométrica e da produção de NGF na área lesionada.

Os resultados mostraram que o grupo onde as células foram aplicadas obteve recuperação funcional completa aos 14 dias (retorno da movimentação dos bigodes dos ratos), enquanto o grupo sem tratamento se recuperou apenas depois de 42 dias. Além disso, embora o grupo sem tratamento tenha exibido valores maiores para a espessura da bainha de mielina, o grupo tratado apresentou uma melhora na organização das células na região lesionada, evidenciando melhor organização axonal e estrutural da bainha de mielina. Aos 42 dias, ambos os grupos estavam próximos dos níveis observados para o grupo controle (sem lesão). Em relação à expressão do fator de crescimento nervoso (NGF), o grupo tratado com DPSC apresentou valores maiores quando comparado ao controle grupo aos 7 dias.

Com base nesses resultados, os autores concluíram que uma única aplicação de DPSC imediatamente após a lesão por esmagamento do nervo facial pode promover um efeito local positivo na neuro-proteção e remielinização 2 semanas pós-tratamento, e pode, assim,  representar um novo alvo terapêutico auxiliar na regeneração de nervo periférico.

A cada nova publicação sobre o uso das DPSC na regeneração nervosa, a possibilidade de seu uso terapêutico futuro ganha força, demonstrando um potencial para o uso destas células em casos que hoje possuem poucos recursos terapêuticos no que diz respeito à regeneração tecidual.

* axônios: é uma parte do neurônio responsável pela condução dos impulsos elétricos que partem do corpo celular, até outro local mais distante (ramificações terminais). Esses impulsos elétricos são como um sinal captado e sendo transmitido para o SNC (exemplo: dor ao espetar o dedo na agulha) e retornando como resposta (exemplo: retirar o dedo da agulha).

** mielina: nos axônios de algumas células nervosas, ocorre um envelopamento em espiral em torno do axônio. Esse envelopamento denomina-se bainha de mielina. Sua função é proteger o axônio e conferir uma condução mais rápida do estímulo nervoso. Esta proteção (mielina) assemelha-se ao ato de envolver um fio de eletricidade com fita isolante. As fibras nervosas que possuem esta bainha de mielina são chamadas de fibras nervosas mielínicas.

Para entender mais, leia:

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