Por Fabienne Ferreira – Departamento de Microbiologia – Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)
Você é uma das pessoas que sofrem com rinite alérgica? Apresenta sintomas como espirros, coceira no nariz, nariz escorrendo e obstrução nasal (o famoso nariz entupido) ao entrar em contato com pólen, ácaros, poeira, pelos de animais, fungos (mofo), entre outros? Se este é o seu caso, você faz parte dos 10-30% dos adultos que, de acordo com uma pesquisa recente, sofrem, em diversos países do mundo, de rinite alérgica.
Apesar de haver tratamento para esta condição clínica, ainda não há uma cura definitiva. Além disso, os mecanismos exatos pelos quais a rinite alérgica se estabelece não são completamente compreendidos. Neste texto, são apresentados novos dados da ciência sobre este assunto, que estão ajudando na pesquisa de novos tratamentos e até de uma possível cura.
A rinite alérgica é a forma mais comum de rinite, que é uma condição inflamatória que afeta as narinas (orifícios do nariz) das pessoas, causando todos os sintomas mencionados no início do texto. É sazonal, quando ocorre em certas épocas do ano; ou perene, quando ocorre o ano todo.
Já é sabido pela ciência que alterações nas bactérias que habitam o corpo humano (conhecidas, em conjunto, como microbiota) estão associadas a diversas condições clínicas. Por isso, os cientistas decidiram investigar se alterações na microbiota também estariam relacionadas com a condição clínica da rinite alérgica.
Para isso, eles compararam as bactérias presentes nas narinas de 55 pessoas com rinite alérgica com as encontradas nas narinas de 105 pessoas saudáveis, que não apresentavam esta condição. A partir desta análise, os cientistas descobriram que os indivíduos que têm rinite alérgica possuem menor diversidade de espécies de bactérias e maior abundância de uma única espécie de bactéria nas narinas, chamada Streptococcus salivarius, quando comparadas com as pessoas saudáveis.
Em seguida, para verificar se a maior abundância desta bactéria nas narinas está relacionada ao agravamento da rinite alérgica, os cientistas utilizaram um modelo animal com camundongos. Estes camundongos tiveram rinite alérgica induzida por um fungo, e a bactéria Streptococcus salivarius foi adicionada ao experimento. Observou-se que o processo inflamatório foi muito mais intenso quando a bactéria estava presente, em comparação com os camundongos sem a presença desse microrganismo. Além disso, houve mudanças na estrutura do revestimento interno (mucosa) do nariz nos animais com Streptococcus salivarius, indicando uma piora do quadro de rinite alérgica devido à presença da bactéria.
Os cientistas também observaram que a exposição a substâncias alérgicas, como o mofo, aumenta a adesão de Streptococcus salivarius à mucosa nasal. As evidências experimentais indicaram que isso ocorre porque, durante episódios de rinite alérgica, há uma maior produção de muco, o que facilita especificamente a adesão dessas bactérias às células das narinas.
Em resumo, este estudo destacou como uma certa bactéria pode piorar a rinite alérgica. Esta descoberta abre portas para o estudo de novos tratamentos inovadores direcionados especificamente ao Streptococcus salivarius, oferecendo esperança para melhorar a qualidade de vida das pessoas que sofrem com rinite alérgica. O interessante nesta abordagem é que ela tem um alvo específico, o que reduziria o risco de interferir nas outras bactérias do nosso corpo, evitando potenciais efeitos colaterais de medicamentos convencionais.

