Por Fabienne Ferreira – Departamento de Microbiologia – Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)
Já se sabe a bastante tempo que o corpo humano é habitado por muitos microrganismos, em um conjunto de seres microscópicos conhecidos como MICROBIOTA. Também não é novidade para a ciência que estes microrganismos auxiliam em muitos aspectos da saúde humana, como produção de vitaminas e desenvolvimento das defesas imunológicas.
Até o momento, os dados científicos indicam que a microbiota começa a ser formada a partir do nascimento, quando entramos em contato com os microrganismos da nossa mãe e do mundo ao redor. Durante o primeiro ano de vida, estes microrganismos aumentam em número e diversidade, com a maior parte deles habitando o intestino. Estudos ecológicos indicam que as primeiras bactérias “colonizadoras” do nosso intestino ditam como será moldada toda a comunidade microbiana que vai se desenvolvendo em seguida. No entanto, sabemos pouco como diferentes padrões na construção desta microbiota podem contribuir para uma vida com mais ou menos saúde.
Para entender um pouco mais sobre o assunto, um estudo recente publicado na revista Nature Microbiology investigou a formação da microbiota intestinal em recém-nascidos, revelando como diferentes colonizadores primários (aqueles que se estabelecem primeiro no intestino) influenciam a composição e função da microbiota. Os cientistas acompanharam mais de 1.200 bebês saudáveis do Reino Unido, coletando amostras de fezes nas três primeiras semanas de vida. Analisando as amostras dos bebês, os cientistas descobriram três perfis distintos da microbiota, definidos pela espécie de bactéria predominante nos primeiros dias de vida: (1) perfil Enterococcus faecalis, (2) perfil Bifidobacterium longum e (3) perfil Bifidobacterium breve.
No perfil “Enterococcus faecalis”, a microbiota era instável e imprevisível, com uma grande rotatividade de microrganismos em poucos dias, tornando o ambiente intestinal mais vulnerável a infecções. Este perfil também apresentava mais resistência a antibióticos quando comparado com os outros, elevando o perigo. Observou-se que bebês nascidos por cesariana e mães que fizeram uso de antibióticos durante a gravidez tinham maior probabilidade de apresentar este perfil.
Já nos perfis 2 e 3, dominados pelas bactérias Bifidobacterium, a montagem microbiana foi mais estável e previsível, com mais grupos permanecendo ao longo dos dias, o que tornou o ambiente intestinal mais protegido contra infecções. A maior parte dos bebês que apresentaram os perfis “Bifidobacterium” era nascida por parto natural e de mães que não usaram antibióticos durante a gravidez. Os cientistas também observaram que a bactéria Bifidobacterium breve tem uma capacidade especial de processar nutrientes do leite materno, o que parece dar a ela uma vantagem sobre as outras.
Quando os cientistas coletaram fezes durante a infância dos mesmos bebês já crescidos, descobriram que a dominância de Bifidobacterium breve continuava presente, indicando um possível impacto duradouro para a saúde intestinal. Por outro lado, Enterococcus faecalis, apesar de reduzir sua quantidade com o tempo, continuava presente em alguns bebês, o que pode aumentar a suscetibilidade a infecções.
Os resultados deste estudo reforçam a importância da microbiota intestinal para a saúde infantil e sugerem que estimular a colonização por Bifidobacterium pode ser uma estratégia eficaz para prevenir doenças e promover o desenvolvimento saudável. A identificação de fatores de risco para a presença de Enterococcus faecalis apoia o estudo de novas estratégias de prevenção, como o uso de probióticos e tratamentos que promovam uma microbiota mais saudável desde os primeiros dias de vida.
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