A saga dos cientistas que copiam a natureza: mais um capítulo na produção de células sanguíneas!

Por Marco Augusto Stimamiglio – Instituto Carlos Chagas, Fiocruz Curitiba – Paraná

Para aqueles que acompanham os textos desta saga, mas também para aqueles que se interessam pela evolução do conhecimento científico em relação à biofabricação de tecidos humanos, lhes apresento uma empolgante descoberta sobre a produção de células sanguíneas em laboratório.

O trabalho desenvolvido por cientistas da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, descreve uma nova maneira de produzir células sanguíneas humanas que imita alguns aspectos do processo embrionário natural. A ideia básica foi recriar, em escala reduzida e controlada, alguns dos ambientes que guiam o embrião a produzir sangue durante o desenvolvimento. É quase como criar um “mini palco” onde a natureza possa dar suas instruções! 

Os Cientistas Descobriram Que nesta “performance da vida” foi, logo nos primeiros dias do experimento, as células-tronco humanas se organizando espontaneamente em camadas (os chamados folhetos germinativos que formam os diferentes tecidos e órgãos do embrião). Por volta do oitavo dia, observaram o surgimento de células pulsantes, como as células cardíacas. E, em torno do décimo terceiro dia, apareceram manchas avermelhadas visíveis a olho nu, indicando a formação de células sanguíneas no sistema experimental. A boa notícia é que podemos presenciar esse show! Veja AQUI.

Mas a melhor parte é que o “embrião sintético”, batizado pelos cientistas de hematoide, promoveu o surgimento de células que se comportaram como progenitores hematopoiéticos (isto é, células que podem gerar diversas linhagens de células sanguíneas). Ou seja, as células derivadas do hematoide foram capazes de se diferenciar não apenas em glóbulos vermelhos (hemácias), mas também em glóbulos brancos (células do sistema imune).

Mas vamos com calma! Ainda que promissor, esse modelo tem limitações: ainda não está demonstrado, em modelos animais ou em pacientes, que essas células produzidas em laboratório possam reconstituir o sistema sanguíneo a longo prazo, como fariam as células-tronco hematopoiéticas naturais. De qualquer forma, este trabalho representa um salto conceitual na construção do conhecimento científico, pois pode nos ensinar muito sobre a formação do sangue durante o desenvolvimento humano inicial e pode, um dia, ajudar a simular e entender distúrbios sanguíneos. Claro que ainda há um longo caminho pela frente, mas o hematoide é, sem dúvida, um dos capítulos mais fascinantes desta saga científica!

Para saber mais:

A post-implantation model of human embryo development includes a definitive hematopoietic niche

Deixe um comentário