Nanopartículas tornam o tratamento do câncer mais inteligente

Por Renata Kiatkoski Kaminski                                                                                           Pesquisadora do Dpto. de Química – UFS

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RenataNão é nenhuma novidade a busca por medicamentos que sejam mais efetivos e com menos efeitos colaterais, ou mesmo veículos que possam levar os medicamentos até o alvo. Quando tomamos um comprimido de 500mg, por exemplo, uma parte dele será absorvida (no estômago ou intestino, mais comumente) levando a uma alta concentração do medicamento na corrente sanguínea. Essas concentrações vão caindoaté o momento em que uma nova dose é necessária. Dessa forma, as concentrações do medicamento sempre serão flutuantes. Nos momentos de pico de concentração, podem até ser tóxicas. Por essa razão, o desenvolvimento de novos materiais que sejam capazes de proteger ou liberar de forma controlada fármacos e outros compostos terapêuticos é uma área em grande expansão e que conta com grande financiamento industrial e governamental.

A utilização de sistemas carregadores de medicamentos permite prolongar o tempo da liberação do remédio no organismo, mantendo por mais tempo a dose terapêutica mínima, evitando assim efeitos colaterais. A liberação do medicamento em um órgão ou tecido específico é outra vantagem desses sistemas. As partículas carregadoras do fármaco são associadas a biomoléculas que são reconhecidas por receptores nas células ou tecidos específicos, impedindo que o medicamento aja sobre células ou tecidos saudáveis. É como uma entrega sob medida, na dose mínima necessária para o tratamento e no lugar certo.

Vários sistemas de liberação são usados, entre eles as nanopartículas, que são estruturas que apresentam dimensões de 100nm ou menos (100 nanômetro equivalente a 0,00001centímetro, ou seja 10 mil de vezes menor que o cm). Embora tenham sido desenvolvidos muitos tipos de nanopartículas com a intenção de liberar medicamentos controladamente, somente nos últimos 4 anos foram produzidas nanopartículas com características promissoras, tais como, estabilidade no organismo, segurança, toxicidade e perfil de liberação adequados.

Pesquisadores do Massachusetts Institute of Technology (MIT) desenvolveram nanopartículas capazes de enfraquecer as defesas de células tumorais e então trata-las com quimioterapia. O tipo de câncer avaliado é um tumor de mama muito resistente a quimioterapia, com pequenas chances de cura e com altos índices de retorno da doença. Estas características estão associadas à grande variabilidade genética desses tumores, fazendo com que eles apresentem grande resistência aos tratamentos convencionais.

A doxorubicina é um medicamento muito efetivo no tratamento de vários tipos de câncer. Esse fármaco provoca danos no DNA das células tumorais, levando-as a morte. O problema é que alguns tipos de células tumorais têm proteínas capazes de bombear, para fora da célula, a doxorubicina, livrando-se do fármaco! Para resolver o problema, o grupo do MIT construiu uma nanopartícula formada por 3 camadas: a camada central é constituída pela doxorubicina; a camada intermediária é formada por um tipo específico de RNA, chamado siRNA, capaz de bloquear a expressão da proteína que bombeia o doxorubicina para fora das células. Essa estratégia permite enfraquecer a resistências que algumas células tumorais apresentam contra a doxorubicina, tornando esse fármaco mais efetivo. A camada mais externa da nanopartícula é constituída por ácido hialurônico, que forma uma superfície discreta que passa pela corrente sanguínea sem perturbação, devido ao acúmulo de água na superfície. Além disso, ele se liga a uma proteína que existe em grande quantidade nas células tumorais mais agressivas.

Em estudos realizados com cobaias, as nanopartículas tiveram um tempo de meia-vida maior que 28h, o que é maior do que qualquer outra nanopartícula testada para liberação de RNA. Num intervalo de 15 dias, os animais com câncer receberam 3 aplicações de doxorubicina encapsulada em nanopartículas. Algum tempo depois, os pesquisadores observaram uma diminuição significativa dos tumores das cobaias.

Essa não é uma nova droga, mas sim, uma nova estratégia para se atingir de forma efetiva as células doentes, um novo veículo para a liberação do fármaco. Esse novo veículo pode ser adaptado para outros tipos de tumores, através da mudança no quimioterápico utilizado, no tipo de RNA e na superfície mais externa da nanopartícula, que deve levar o sistema até o alvo. Desta forma, podemos ter tipos de tratamento que são personalizados, causando menos efeitos colaterais nos pacientes. Muitos testes ainda devem ser feitos até que se tenha disponível esse tipo de tratamento como trivial, porém é um sistema promissor no caminho do tratamento inteligente do câncer.

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