Exames de sangue podem revolucionar o tratamento do câncer

Por Ricardo Castilho Garcez                                                                                                                Prof. Dpto de Biologia Celular, Embriologia e Genética – UFSC

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Ricardo - imagem 2Há anos, pesquisadores do mundo inteiro prometem a cura para o câncer, mas na prática o que vemos são pequenos avanços, não a cura total. O grande responsável por essa aparente inabilidade que os pesquisadores têm em curar definitivamente o câncer, vem da falta de conhecimento sobre a biologia das células tumorais. A medida que as pesquisas avançam, novas e surpreendentes características das células tumorais são reveladas (como no texto sobre metástases tumorais publicado recentemente aqui no CDQ). Uma das facetas mais impressionantes das células tumorais foram reveladas recentemente, cientistas descobriram que as células que formam um tumor sólido são muito diferentes umas das outras, não apenas em relação ao seu comportamento (mais, ou menos agressivas), mas em relação às alterações presentes no seu DNA, chamadas de mutações.

Em 2012, a equipe de Charles Swanton, Instituto de Pesquisas do Câncer de Londres, descobriu uma intrigante faceta dos tumores. Esses pesquisadores sequenciaram o DNA de uma grande variedade de tumores renais. O objetivo desses pesquisadores era fazer um levantamento das mutações mais comuns nesse tipo de câncer. Os resultados foram surpreendentes. Eles verificaram, primeiramente, que não existia um padrão claro entre as mutações de tumores renais. Mais surpreendente ainda, foi verificar que existiam grandes variações de mutações num mesmo tumor. As células das bordas do tumor, por exemplo, exibiam um perfil diferente de mutações, em relação às células do centro do tumor. Essas diferenças são tão marcantes que células a poucos milímetros umas das outras, apresentaram um padrão de mutações do DNA completamente distinto. Essas mutações permitem que as células tumorais tornem-se resistentes aos quimioterápicos, por exemplo. Isso quer dizer que, num único tumor, em resposta a um determinado quimioterápico, podem ter células que morrem e células que não morrem, pois apresentam mutações que as tornam resistentes a este quimioterápico.

É importante lembrar que as análises de biópsias, na oncologia atual, são as principais fontes de informação sobre o tipo do tumor. São a partir dos dados obtidos nas biópsias que os tratamento são determinados. Se considerarmos que o material retirado numa biópsia é um pequeno fragmento de um tumor, podemos concluir que a maioria dos tratamentos para o câncer está sendo realizada com base nas informações de uma pequena parte da massa tumoral. Com base nas descobertas acima, esse fragmento não fornece as informações do tumor como um todo. Seria como se tentássemos entender toda a pluralidade da cultura do povo brasileiro, analisando apenas um pequeno grupo de alunos de uma escola no interior do Brasil. Isso pode parecer um descoberta um pouco triste para os pacientes que lutam contra o câncer, mas é a partir de descobertas como estas que surgem ideias revolucionárias.

Nessas alturas, você leitor pode estar se perguntando: e se fossem feitas várias biópsias de um mesmo tumor? Para a maioria dos tipos de tumores, esse procedimento é inviável, a lesão cirúrgica seria maior, alguns órgão frágeis como pulmão, não resistiriam. Mas nem tudo está perdido, descobertas feitas há mais de 17 anos atrás, podem permitir um grande avanço na caracterização dos tumores. Algumas células saudáveis do nosso corpo, ao morrerem, acabam rompendo e liberando seu DNA na circulação sanguínea. Esse é um processo normal, o DNA livre na circulação sanguínea é removido pelas células do sistema imunológico. Como as células tumorais apresentam altas taxas de proliferação e seu desenvolvimento não respeita os limites normais dos tecidos, uma parte delas comumente morrem, também liberando seu DNA na circulação sanguínea. A presença desse DNA tumoral (ctDNA) na circulação já é conhecida há mais de 17 anos. Todavia, apenas nos últimos anos, com o desenvolvimento de modernas técnicas de sequenciamento, esse DNA pode ser identificado na corrente sanguínea de um paciente portador de um tumor. Isso quer dizer que uma simples coleta de sangue, poderia fornecer informações importantes sobre as mutações presentes nesse tumor e, consequentemente, auxiliar na caracterização do tipo de câncer e tratamento.

O sequenciamento do ctDNA já está sendo realizado em grandes centros de oncologia nos EUA, no entanto, ainda de maneira experimental. Várias questões ainda devem ser respondidas, sendo a mais importante delas: O ctDNA, presente na circulação, pode ser considerado uma amostra representativa do tumor? Não há duvidas, no entanto, que o ctDNA pode promover um revolução na caracterização dos tumores. Sem dúvida, novos dados surgirão, permitindo o desenvolvimento de drogas e tratamentos mais eficientes contra o câncer.

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