Quando a teoria cria uma economia

Por Vitor Klein                                                                                                                    Pesquisador do Grupo Strategos – Esag/UDESC

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A imagem da ciência econômica como o campo que busca analisar a produção, a distribuição e o consumo de bens e serviços tem sido enriquecida por recentes contribuições da sociologia econômica. Pesquisadores dessa área têm oferecido perspectivas inéditas sobre como teorias econômicas eventualmente criam a realidade que pretendem explicar ou prever.

Vitor - FiguraUm estudo exemplar nesse campo é o de Donald MacKenzie e Yuvall Millo sobre como a teoria de precificação de opções foi fundamental na criação e expansão meteórica do mercado de derivativos. A teoria de precificação de opções, de maneira simplificada, é uma metodologia para se chegar ao preço justo de uma ação; já os derivativos são ações cujo preço depende de outro ativo. Para ter uma ideia do quanto esse mercado expandiu, em 1970 ele era praticamente inexistente; já em meados de 2000 seu valor total atingia cerca de U$ 108 trilhões; e apesar da crise financeira de 2007, quando valores chegaram a cerca de U$ 500 trilhões, atualmente esse montante já superou a casa dos U$ 700 trilhões, ou seja, em mais de dez vezes o PIB mundial.

Pesquisando as raízes históricas do mercado de derivativos, MacKenzie e Millo demonstram que o modelo matemático Black-Scholes-Merton, principal balizador para a formação de preços de opções, foi incorporado às práticas de arbitragem com sucesso não por ter descoberto padrões de preço pré-existentes, mas por auxiliar agentes de mercado a legitimar a prática de negociar derivativos. Essa legitimação foi necessária porque apesar de derivativos serem instrumentos conhecidos nas bolsas de valores desde o século XIX, desenvolvidos com o propósito de proteger agentes econômicos contra eventuais riscos de flutuações de preços, o seu comércio caiu em descrédito após uma série de abusos cometidos no primeiro quarto do século XX. Tratadas com suspeição desde então, e vistas como prática especulativa, reguladores do mercado permaneceram reticentes à reintrodução da prática.

Uma série de ações de associados da bolsa de Chicago durante a década de 1970, como documentam MacKenzie e Millo, viria a reabilitar a prática de negociar derivativos; sendo que sua legitimação definitiva ocorreria com a disseminação do modelo matemático Black-Scholes-Merton. Inicialmente, contudo, o modelo não descrevia acuradamente preços de opções, sendo necessários ajustes para que ele fosse efetivamente utilizado. Ou seja, o ajustamento entre a realidade e o modelo, fraco inicialmente, aconteceu gradualmente e o sucesso da teoria se deu não pelo modelo descrever uma realidade econômica pré-existente, mas por introduzir um novo padrão na formação de preços de opções. Com isso, o comércio de derivativos, até então tratado com desconfiança e como prática meramente especulativa, se estabeleceu segundo critérios de “precificação eficiente”. O desfecho dessa história é intrigante.

O modelo Black- Scholes-Merton rendeu a seus idealizadores o prêmio Nobel de Economia em 1997. No entanto, oito meses depois a corretora de alto risco (hedge fund) administrada pelos idealizadores do modelo, perdeu cerca de US$ 2 bilhões durante a crise russa e veio a falir, o que demonstra que modelos matemáticos não dão conta de todo tipo de imprevisibilidade e que podem até mesmo reforçar uma falsa percepção de risco. A crise financeira de 2008 lançou o mercado de derivativos novamente em questionamento e debates sobre o papel do modelo Black-Scholes-Merton na constituição da crise se acirraram. Por um lado, alguns acreditam que a fórmula de precificação teria sido pivô de abusos cometidos que levaram à crise, pois reforçava a ideia de que os riscos eram mínimos; por outro, há aqueles que defendem que o modelo, por si só, não é fator determinante da crise, mas sim as pessoas que fizeram mau uso desta ferramenta e assumiram riscos excessivos. Fato é que, modelos regulatórios permitiram que inovações complexas no campo financeiro se proliferassem e que os montantes negociados se tornassem tão grandes a ponto de governos terem que resgatar, com dinheiro público, bancos falidos que ameaçavam arrastar economias inteiras para o colapso. A tese da performatividade da ciência econômica, como é chamada no meio acadêmico, é desse modo uma contribuição importante para o entendimento da economia, pois evidencia os desafios aos quais reguladores do mercado e governos estão sujeitos. Afinal, se teorias e modelos abstratos podem criar um mercado tão gigantesco como o de derivativos, o que fazer para que a complexidade de tais inovações não mascare eventuais riscos que podem causar prejuízos sociais mais amplos?

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