Inteligência Artificial no diagnóstico de transtornos mentais – teremos psiquiatras robôs?

Por Ms. Natali Granzotto e Dr. Geison Izídio, Dpto de Biologia Celular, Embriologia e Genética da UFSC

As máquinas vão dominar o mundo! O que há algumas décadas parecia ficção científica hoje está cada vez mais próximo da nossa realidade. A inteligência artificial já é usada nas mais diferentes áreas, e o chamado “aprendizado de máquina” está acelerando o desenvolvimento da ciência de maneira geral. Hoje, já é possível encontrar robôs otimizando e até mesmo substituindo o trabalho de diversos profissionais.

Mas por que não esbarramos nesses robôs andando na rua? Onde estão os C3POs e R2D2? Ao contrário do que a maioria das pessoas imaginaria há alguns anos (induzidos pela própria ficção científica), os robôs de hoje são, na sua maioria, sistemas incorpóreos. Claro que existem robôs, no sentido mais clássico, com aparência humanoide, mas eles são menos comuns. Alguns são inclusive capazes de executar tarefas bastante complexas, como, por exemplo, realizar tarefas domésticas e até mesmo imitar o comportamento humano (veja a entrevista do robô Sophia abaixo).

Porém, em sua grande maioria, realmente, os robôs são sistemas virtuais, que têm a capacidade de cruzar dados e incorporar novas informações ao “raciocínio” do programa (“aprendizado de máquina”). Ou seja, cada vez que este sistema executa determinada tarefa ele é capaz de se adaptar a fatores novos que venham a aparecer (para os quais ele não tinha sido originalmente programado) ampliando o arsenal de possibilidades e melhorando o seu desempenho.

Mas será que um robô é capaz de diagnosticar um transtorno mental humano? Esses diagnósticos são subjetivos e geralmente feitos com base em sintomas que nem sempre são quantificáveis (nem sempre podem ser medidos). Por exemplo, os diagnósticos de depressão e transtorno bipolar são feitos majoritariamente com base nos relatos dos pacientes, envolvendo fatores difíceis de explicar com precisão. Eu me sinto triste ou nervoso às vezes. Mas quão triste? Quão nervoso? Eu não tenho um valor definido de tristeza ou nervosismo, e a valência ou a importância que isso tem para mim pode não ser a mesma para você. Ou seja, o diagnóstico de várias doenças neurocomportamentais (que afetam o sistema nervoso e o comportamento) é difícil e, às vezes, até controverso. Os profissionais qualificados têm que combinar parâmetros subjetivos e identificar componentes na história do paciente, seguindo algumas diretrizes para ter um diagnóstico correto. Muitas vezes o clínico acaba nem tendo acesso a toda informação necessária.

Um grupo de cientistas brasileiros foi pioneiro no desenvolvimento de um programa capaz de analisar o relato de sonhos dos pacientes e a partir deles diagnosticar de maneira confiável o transtorno bipolar e a esquizofrenia. Cientistas do Instituto do Cérebro (UFRN) desenvolveram um método capaz de transformar o relato dos sonhos em representações gráficas – chamadas de grafos. Nesses grafos, cada elemento do sonho relatado pelo paciente é representado como um “nó”. Conforme o paciente vai relatando outros nós na sequência, o programa vai fazendo a correlação entre os nós por meio de linhas que são as chamadas “arestas”. O resultado é um gráfico que lembra um jogo de ligar os pontos sem um desenho bem definido. O programa de computador cruza o padrão formado pelos nós e arestas com a base de dados, realiza cálculos matemáticos e quantifica alguns parâmetros como a quantidade de nós e a conectividade entre eles. Ele também calcula a probabilidade do discurso ter sido criado de maneira aleatória (ordenando os nós ao acaso). A partir desse conjunto de dados o programa consegue apontar o possível diagnóstico do paciente para o transtorno bipolar ou esquizofrenia.

Em um trabalho de 2017 os cientistas descobriram que é possível determinar um diagnóstico de esquizofrenia com mais de 90% de acurácia, a partir da análise dos grafos gerados na primeira consulta, cerca de 6 meses antes do diagnóstico tradicional. Nesse trabalho, os autores mostraram que a desordem de pensamento, que gera um grafo mais próximo de um discurso gerado aleatoriamente, está altamente correlacionada com os sintomas negativos da esquizofrenia (prejuízos na fala e na afetividade dos pacientes).

Mas calma, seu psiquiatra não vai ser substituído por um robô! (ao menos, não por enquanto…). Você pode até colar este texto no Google e ouvir uma máquina lendo ele para você, mas esses programas não substituem os profissionais de saúde. Eles servem sim como ferramentas de otimização na clínica. O ser humano ainda é superior às máquinas em alguns pontos importantes na atenção à saúde, percebendo, por exemplo, nuances de comportamento que ainda não são captadas pelas máquinas.

Para saber mais, acesse os artigos abaixo:

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