Finalmente um tratamento eficaz para a Artrite Reumatoide?

Por Marco Augusto Stimamiglio, Instituto Carlos Chagas – Fiocruz/PR

A artrite reumatoide (AR) é uma doença autoimune, na qual o próprio sistema imunológico do paciente ataca seus tecidos saudáveis. Esta condição causa a inflamação crônica das articulações do corpo, o que provoca dor, inchaço, degeneração dos tecidos e deformidades nas articulações a longo prazo.

Os medicamentos convencionais para o tratamento desta doença são pequenas drogas químicas sintéticas com função anti-inflamatória, como o metotrexato que é tipicamente o medicamento de primeira linha para o tratamento da AR. Entretanto, estas drogas apresentam muitos efeitos colaterais graves, como insuficiência dos rins e fígado. Uma alternativa seria a aplicação local dos químicos sintéticos (por injeções intra-articulares) ao invés do uso oral e sistêmico como é habitualmente aplicado. Contudo, no caso das articulações, a aplicação local fornece um benefício limitado, pois as drogas são rapidamente removidas através dos vasos linfáticos, permanecendo menos de 4 horas na articulação.

Diante destes desafios, os cientistas estudam diferentes abordagens de tratamento com o uso de drogas embrulhadas em pequenas partículas que permitem a ação mais localizada e prolongada do medicamento. No entanto, a maioria desses estudos recentes se concentra no alívio de sintomas, como a redução da inflamação pela inibição de células do sistema imune. Acontece que estas abordagens terapêuticas interferem no papel crucial da vigilância imunológica e defesa do nosso corpo, levando a complicações graves com o tratamento de longo prazo, como infecções, úlceras e hepatite.

Ilustração esquemática da estratégia para o tratamento da AR usando vesículas extracelulares derivadas de macrófagos M2

Em um estudo publicado recentemente (julho de 2022), cientistas coreanos utilizaram de estratégia inovadora para reprogramar células do sistema imune nas articulações, como forma de regular a resposta inflamatória local e a recuperação do tecido articular. A reprogramação foi feita em macrófagos, células da primeira linha de defesa com funções de combate direto e regulação de outras células do sistema imune. Além disso, os macrófagos, que foram tema de outros estudos tratados aqui no CDQ (O que faz bater o seu coração? Os Macrófagos! Eles são electrizantes…), são células heterogêneas que podem estimular a inflamação (M1) ou reprimi-la (M2), desempenhando assim atividades de reparo tecidual. Para a reprogramação dos macrófagos M1 (pró-inflamatórios) em M2 (anti-inflamatórios), os cientistas não se utilizaram de manipulação genética, que interfere diretamente na expressão de alguns genes e altera o estado da célula. O que fizeram foi usar pequenas partículas (chamadas vesículas extracelulares, que incluem os exossomos já revelados anteriormente aqui no CDQ) produzidas por macrófagos M2. Estas vesículas têm função de transporte de informações e permitem a comunicação e a regulação entre células. Portanto, como a AR é uma doença inflamatória, as vesículas dos macrófagos M2 teriam o papel imunoterapêutico de restabelecer o equilíbrio entre macrófagos M1 e M2 no tecido articular, controlando assim a inflamação. 

Neste estudo, os cientistas coreanos demonstraram uma excelente capacidade das vesículas dos macrófagos M2 em reprogramar os macrófagos M1 articulares, resultando em diminuição do inchaço nas articulações, do índice de artrite e da inflamação local, com redução correspondente na degeneração dos ossos e na lesão da cartilagem articular. Além disso, os efeitos anti-AR das vesículas foram comparáveis​​ aos do medicamento convencional metotrexato, porém, sem causar efeitos adversos tóxicos, pois esta estratégia de reprogramação imita de forma mais natural a sinalização celular nos tecidos. No geral, a estratégia de reprogramação e ajuste da resposta dos macrófagos guiada pelas vesículas demonstrou ser uma grande promessa para o desenvolvimento de terapias anti-inflamatórias além da AR. 

É importante frisar que este estudo foi realizado em camundongos e não representa as condições em humanos. Também ainda não podemos responder à pergunta do título deste texto, pois existem muitas etapas a cumprir para que uma descoberta laboratorial venha a se tornar um tratamento clínico. Ainda assim, os resultados alcançados pelos cientistas são promissores e o potencial deste modelo de terapia parece ser realmente notável.

Imagens representativas de patas traseiras dos ratos em diferentes grupos de tratamento obtidos com uma câmera convencional.

Para saber mais

  1. Extracellular vesicle-guided in situ reprogramming of synovial macrophages for the treatment of rheumatoid arthritis

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