Cabelo, cabeleira: uso combinado de IGF-1 e EGF como potencial tratamento da perda intensa de cabelo

Por Michelle Tillmann Biz – Dpto. de Ciências Morfológicas / UFSC

Figura 1: imagem esquemática demonstrando o ciclo de um folículo piloso (FP).

Você já deve ter notado que nossos pelos/cabelos estão continuamente crescendo, caindo e sendo renovados. Pois bem, o responsável por este processo é o folículo piloso (FP), um conjunto de células localizadas na base da pele/couro cabeludo com o papel de originar, estimular o crescimento, manter e renovar os pelos/cabelos. Assim, nossos pelos/cabelos caem de tempos em tempos, e, na maioria das vezes, logo outros crescem no lugar (pelo menos para a maioria das pessoas…). Este ciclo de crescimento e perda reflete exatamente o processo contínuo e cíclico do FP, que é dividido em três fases: anágena (de desenvolvimento do FP), catágena (de degradação do FP) e telógena (de repouso do FP) (vide figura 1).

A fase de desenvolvimento é a mais longa (podendo durar entre 2 a 8 anos) e é caraterizada pelo período de produção/crescimento do fio de cabelo; em seguida virá a fase de degradação do FP (que dura de 2 a 4 semanas); e por fim a fase de repouso do FP (com duração de 2 a 4 meses) onde não há mais crescimento do fio de cabelo. Dentro deste ciclo, perder cabelo é normal e estará relacionado ao recomeço do ciclo do FP onde, reiniciando a fase de desenvolvimento, um novo fio de cabelo começa a crescer e empurrar o fio que estava em fase de repouso… e assim sucessivamente.

Mas nem sempre ocorre desta forma, as vezes o ciclo é interrompido, o que faz algumas pessoas sofrerem com perda intensa de cabelo e a não reposição na taxa normal, podendo chegar à calvície; e os tratamentos hoje disponíveis ainda não são totalmente efetivos, tendo em vista a complexidade biológica deste processo no folículo piloso.

O que se sabe hoje, é que este processo de crescimento, repouso e queda do pelo/cabelo encontra-se regulado por moléculas que são produzidas pelas próprias células do FP, dentre elas o IGF-1 (fator de crescimento derivado de insulina) e EGF (fator de crescimento epidérmico). Estudos já demonstraram que o IGF-1 está relacionado com o ciclo do desenvolvimento do FP e o crescimento de pelos em camundongos. Já o EGF possui efeito no desenvolvimento do FP humanos cultivados em laboratório. Além disso, EGF utilizado em coelhos, de forma subcutânea, provoca aumento da produção de pelos. Baseado no que sabemos deste processo, em estudo recente, Cientistas Descobriram Que o uso combinado de IGF-1 (10 ng/mL) e EGF (20 ng/mL) pode interferir neste processo biológico, aumentando a quantidade de FP, além de aumentar o crescimento/alongamento do pelo.

Para este estudo, os pesquisadores utilizaram cultura de organoide de FP humano (FPs feitos em laboratório) e também utilizaram modelo animal (coelhos). Utilizando os organoides de FP, os pesquisadores verificaram que o tratamento combinado de IGF-1 e EGF aumentou a proliferação celular no FP, promovendo seu desenvolvimento in vitro. Já quando aplicado sob a pele de coelhos (in vivo), o tratamento combinado de IGF-1 e EGF interferiu favoravelmente na transição entre a fase telógena (de repouso) para a anágena (de desenvolvimento), promovendo assim, o crescimento de novos pelos.

Ainda, análises genéticas demonstraram que o IGF-1 e EGF regulam positivamente a expressão de genes específicos relacionados ao desenvolvimento do FP que foram aumentadas após o tratamento combinado de IGF-1 e EGF, resultando um maior desenvolvimento do FP.

Com estes resultados os pesquisadores sugerem que o tratamento combinado com IGF-1 e EGF tem potencial de promover a proliferação celular do FP e a aceleração do crescimento/alongamento de pelo. Ainda, o modelo in vivo demonstrou uma maior renovação, crescimento/alongamento do pelo e aumento da densidade de FP.

Ao que parece estamos diante de uma possibilidade futura de terapia que possa auxiliar aqueles que convivem com a perda intensa e constante de cabelo e diminuição da sua “cabeleira” dia após dia. Entretanto, embora pareça promissor, deve-se ressaltar que o uso de fatores de crescimento como possibilidade de tratamento estético precisa ser cauteloso, tendo em vista que muitos deles (como, no caso aqui, o EGF e o IGF) também participam do processo de desenvolvimento e progressão de alguns tumores. Então, preparem suas escovas, mas com cautela! Há que se aguardar estudos pontuais, mais específicos e de longo prazo que possam dar segurança no uso destes fatores como tratamento nestes casos.

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