As mudanças climáticas podem contribuir para o aumento da resistência aos antibióticos?

Por Fabienne Ferreira Dpto. de Microbiologia, UFSC

Em 2019, a Organização Mundial de Saúde (OMS) divulgou uma lista com as 10 principais ameaças à saúde pública mundial, onde estão inseridas as mudanças climáticas e a resistência aos antibióticos. Mudanças climáticas referem-se às alterações de longo prazo nos padrões médios de temperatura, precipitação, ventos, entre outros aspectos no planeta. As principais consequências das mudanças climáticas incluem o aquecimento global, o derretimento das geleiras, eventos climáticos extremos e perda de biodiversidade. Segundo a OMS, estas mudanças estão relacionadas a cerca de 250.000 mortes adicionais esperadas por ano entre 2030 e 2050. 

Já a resistência aos antibióticos é um fenômeno em que microrganismos, como bactérias, tornam-se menos sensíveis ou completamente resistentes aos efeitos dos antibióticos que anteriormente eram eficazes contra eles.

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Evolução das bactérias “à la carte” quando expostas ao tratamento com antibióticos

Por Rita Zilhão – Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, Portugal

Figura 1: Estrutura geral dos integrons. IntT– gene que codifica a integrasse. GC – diferentes cassetes de resistência a antibióticos (adaptado de Stalder T. et al. (2012).

A resistência aos antibióticos continua a ser um problema em saúde pública devido à notável destreza de resposta das bactérias a alterações ambientais, tais como a presença de antibióticos.

Mas de onde vem esta flexibilidade das bactérias? Ora, uma das estratégias que as bactérias desenvolveram foram os chamados elementos genéticos móveis, isto é, segmentos de DNA que se podem mover não só dentro do próprio genoma de uma bactéria como ser transferidos para uma bactéria diferente. Através destes elementos as bactérias podem adquirir novos genes que, inclusivamente, já podem ter sobrevivido ao desafio da seleção natural em outras espécies bacterianas. Globalmente, a diversidade genética bacteriana aumenta e confere-lhes uma faceta de sobrevivência que, representando em si uma vantagem para as mesmas, pode ser um problema para o homem como o que se observa na propagação global da resistência aos antibióticos cujos genes de resistência fazem frequentemente parte destes elementos.

Mas vejam o seguinte: na ausência de antibióticos não tem então muito sentido a bactéria adquirir genes de resistência, que não lhe são necessários, assim como produzir proteínas de resistência (caso já contenha os genes de resistência). Ambos os mecanismos são dispendiosos e podem reduzir a viabilidade da bactéria sendo mais um prejuízo que uma vantagem. Contudo, se surge um antibiótico seria muito vantajoso que a célula já estivesse preparada para lhe resistir, certo?

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