Bactérias do solo podem ser utilizadas na terapia do câncer

Por Tiago Góss dos Santos e Ricardo Castilho Garcez                                                    Pesquisador do CIPE, Hospital AC Camargo; Prof. do Dpto. de Biologia Celular, Embriologia e Genética – UFSC

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Tiago Ricardo - imagemAs bactérias são normalmente relacionadas a doenças e a sujeira, no entanto, em algumas situações elas são nossas aliadas (ver Gordurinhas, bactérias e malignidades). As bactérias intestinais, por exemplo, são indispensáveis para o bom funcionamento do nosso intestino. Alterações na composição normal destas bactérias pode causar desde desconfortos intestinais leves, até disfunções neurológicas (ver Bactérias intestinais podem contribuir para o autismo). Sabendo que algumas bactérias são benéficas e outras maléficas para nossos organismos, cientistas americanos tiveram uma ideia brilhante: utilizar bactérias maléficas para matar células tumorais! Nesse ponto o leitor deve estar se perguntando: se a bactéria é maléfica, o que garante que ela só matará as células tumorais?

Nicholas Roberts e seus colegas do Instituto Ludwig nos EUA elaboraram uma estratégia muito interessante. Boa parte dos tumores crescem muito rápido, isso impede que algumas regiões do tumor tenham uma irrigação sanguínea adequada, criando ali uma região de baixa oxigenação, onde algumas células tumorais se adaptam para sobreviver. Como a grande maioria dos fármacos utilizados na quimioterapia chegam até o tumor via circulação sanguínea, é comum que essas células da região central do tumor não sejam afetadas pela quimioterapia, podendo, muitas vezes, levar ao retorno do câncer. Este tipo de situação também tem consequências para a radioterapia, pois o sucesso deste procedimento depende muito de haver condições normais de oxigênio.  Sendo assim, o desafio do grupo de Nicholas Roberts era eliminar as células tumorais capazes sobreviver nas regiões de baixa oxigenação do tumor.

Esses pesquisadores conheciam um tipo de bactéria que vive normalmente no solo, em regiões pobres em oxigênio (bactéria anaeróbica), chamada Clostridium novyi. Nesse momento, os pesquisadores se perguntaram: se injetarmos essas bactérias no centro do tumor, elas sobreviveriam? Se sobreviverem, essas bactérias matariam apenas as células tumorais? A resposta foi sim!

O primeiro desafio foi modificar geneticamente a bactéria de maneira que ela não produzisse toxinas, pois estas poderiam ter efeitos secundários adversos. Como dito anteriormente, a bactéria Clostridium novyi é intolerante ao oxigênio, ou seja, ela sobrevive e cresce bem nas regiões de baixa oxigenação. No entanto, essa bactéria morre rapidamente quando chega ao tecido que está bem oxigenado, seja ele tecido tumoral ou saudável! Os pesquisadores testaram a injeção dessa bactéria, inicialmente em tumores experimentais em ratos, depois testaram em tumores espontâneos de cachorros e, posteriormente, em uma única paciente humana. Em todos os testes foi observado uma redução considerável na massa tumoral. A presença dessas bactérias na região central dos tumores, acabou atraindo células do sistema imunológico. A resposta imunológica gerada pela presença das bactérias, acabou permitindo a eliminação das células tumorais com maior eficiência. De maneira geral, os pacientes apresentaram alguns sintomas característicos de uma infecção bacteriana, como febre, náusea etc. Esses sintomas, no entanto, foram facilmente controlados com o uso de antibióticos.

Algumas questões ainda permanecem em aberto. Essas bactérias poderiam adquirir resistência aos antibióticos? Elas seriam eficientes apenas para tumores sólidos em estágio mais avançados? Seria essa terapia eficiente quando combinada com outros tipos de tratamentos, como a quimioterapia convencional? Dúvidas a parte, essa nova ideia bastante elegante, não consegue por si só eliminar todas as células tumorais, terapias convencionais devem ser aliadas à aplicação dessas bactérias. Todavia, o uso de Clostridium novyi conseguiu eliminar as células tumorais que normalmente apresentam resistência ao tratamento quimioterápico convencional. Quando se trata de descobertas identificas recentes devemos sempre ser muito cuidadosos, mas os dados apresentados por Nicholas Robert e seus colaboradores são bastante animadores.

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