Por que estas mulheres são inesquecíveis?

Convidado especial do Cientistas descobriram que…                                                              Prof. Dr. Gilberto Cézar de Noronha                                                                                            Núcleo de Estudos e Pesquisas em História Política – INHIS – UFU – MG.

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Gilberto ImagemAté bem pouco tempo, supúnhamos que as mulheres que viveram no Brasil, no período colonial, fossem esposas “submissas e dedicadas apenas aos seus lares, ao casamento e aos filhos”. Sobretudo as mais abastadas, já que as mais pobres, muitas vezes, se viam obrigadas a transgredir a moral vigente, precisando trabalhar, já que nem todas tinham marido. Nas últimas décadas, entretanto, os historiadores descobriram que esta interpretação continha dois equívocos. Primeiro porque aquela imagem da mulher rica, virgem enclausurada, em casa ou no convento, era mais um desejo dos conservadores (a norma social) do que uma prática efetiva daquelas mulheres reais. Segundo, porque considerar a liberdade das mulheres pobres apenas como fruto da necessidade, e não de uma luta ou uma conquista, soava como uma espécie de preconceito social e econômico contra elas.

Pesquisas atuais têm mostrado que mulheres de diversas classes sociais foram chefes de família, transgrediram as normas de conduta e lutaram ativamente na construção da história do país. Pobres ou ricas tiveram suas margens de liberdade e também, é claro, enfrentaram muitos preconceitos numa sociedade patriarcal que esperava fossem elas “Marias” santas, mas no fundo desconfiava de que eram apenas “Evas” pecadoras.

A trajetória destas tantas mulheres tem intrigado os historiadores. Muitas delas ocuparam lugares de destaque na sociedade colonial, exercendo papéis considerados tipicamente masculinos com extrema ousadia. Outras tantas, séculos depois de sua morte, ainda são lembradas pela população da região onde habitaram. É possível que você já tenha ouvido falar, por exemplo, de famosas matronas mineiras do período colonial como Chica da Silva de Paracatu, Dona Beja do Araxá, D. Maria da Cruz do norte de Minas ou Joaquina do Pompéu, de Pitangui: todas elas tiveram suas trajetórias revisitadas, recentemente, por trabalhos acadêmicos de leitura instigante (FURTADO, 2003; MONTANDON, 2004; BOTELHO e ANASTASIA, 2012; NORONHA, 2007; 2014).

Tais pesquisas têm mostrado que até mesmo as mulheres mais poderosas viveram em condições instáveis frente às avaliações frequentes de sua conduta. Não raro, ainda hoje, sofrem julgamentos severos, quando já são consideradas grandes personalidades. Verdadeiros fenômenos da memória, confirmam a famosa frase de Getúlio Vargas: definitivamente, elas saíram “da vida para entrar na história”. Algumas se tornaram verdadeiros mitos, reconhecidas não apenas como mulheres reais do passado, mas lembradas, ora como heroínas (quase santas), ora como fêmeas depravadas, a denunciar que o preconceito de gênero resiste no nosso país, e não poupa nem àqueles que já poderiam descansar em paz.

Em todo caso, mulheres inesquecíveis, cujas memórias também fizeram história: transmitidas de boca em boca (como se fossem fofocas, disse-que-disse, “histórias de maledicência”), registradas em narrativas literárias, lembradas em arquivos e museus temáticos, algumas inclusive tendo suas histórias recontadas em filmes, seriados e novelas televisivas.

Mas por que estas mulheres ganharam tanta notoriedade, enquanto outras simplesmente foram esquecidas? Para tentar responder a estas questões, investiguei a trajetória da memória de Joaquina do Pompéu, nascida em 1752, em Mariana, Minas Gerais (NORONHA, 2007; 2014). O que teria de marcante na vida desta mulher nascida no século XVIII que nos faça compreender porque, quase duzentos anos depois de sua morte (1824) ela ainda seja lembrada?

Em primeiro lugar, ela teve uma vida controversa que ajuda a alimentar a imaginação das pessoas, motivando a transmissão de suas histórias entre as gerações. Ainda hoje, não há consenso sobre sua conduta: teria sido ela uma Grande dama ou uma Messalina nos trópicos? Sua fama atual se constitui desde as histórias gloriosas de valentia e fidalguia (como o fato de supostamente ter recebido de D. Pedro I, um cacho de bananas de ouro maciço como retribuição ao envio de alimentos às tropas nas lutas de Independência do Brasil) até os causos populares: descomedimentos sexuais, seus atos cruéis e sádicos, verdadeiras histórias de fazer medo nas crianças.

Em segundo lugar, as controvérsias sobre sua personalidade têm servido para usos políticos específicos. Eu explico: para que a sua trajetória tivesse sido transmitida entre as gerações, não bastou que as histórias contadas sobre ela fossem instigantes e inconclusas, mas exerceram uma função (prática ou simbólica) na vida dos grupos sociais que se lembra dela. Por exemplo, aqueles que evocam a memória de Joaquina do Pompéu como uma grande dama procuram transmitir às novas gerações o que significa ser seu herdeiro político de Joaquina do Pompéu: a fazendeira rica, senhora de escravos, dona de terras e de gentes, mulher valente quase como um coronel de saias, “mulher-macho”. Motivo de orgulho para os atuais donos de terra da região do oeste de Minas, verdadeiro símbolo de poder local.

Entretanto, esta mesma imagem de fazendeira é evocada pelos índios Kaxixó (que vivem às margens do Rio Pará) quando lutam pelo seu direito de demarcação de terras. Não porque se orgulhem daquela fazendeira pioneira, tal como seus descendentes, herdeiros legais, mas porque afirmam ter sido ela a invasora das terras de seus antepassados indígenas, ainda no século XVIII, a justificar a disputa pela terra.

Portanto, Joaquina do Pompéu é lembrada tanto para garantir um direito de propriedade (dos seus herdeiros) quanto para cobrar uma dívida histórica (no caso dos indígenas). Estas “razões para se lembrar” confirmam aquilo que os estudiosos de diversas áreas, interessados pelos fenômenos da memória, já haviam descoberto: A memória, em suas dimensões individuais e coletivas, não é um repositório neutro de acontecimentos do passado, como se fosse um disco rígido. É uma ação interessada, embora não apenas ato consciente. Só lembramos e transmitimos como herança cultural aquilo que nos faz agir no presente. Para ser inesquecível tem que ser significativo. E no caso da história das mulheres, nos parece que quanto mais a luta por liberdade, igualdade e independência se fortalece no presente, mais nos interessarão retomar as lutas das mulheres do passado!

Saiba Mais – Referências bibliográficas

BOTELHO, Angela Vianna e ANASTASIA, Carla. D. Maria da Cruz e a Sedição de 1736. Belo Horizonte: Autêntica, 176p. 2012.

FURTADO, Junia Ferreira. Chica da Silva e o Contratador dos Diamantes – O outro lado do mito. São Paulo: Cia das Letras, 2003. 440p.

MONTANDON, Rosa Maria Spinoso de. Dona Beja: desvendando o mito. Uberlândia: Edufu, 2004, 276p.

NORONHA, Gilberto Cezar de. Joaquina do Pompéu: tramas de memórias e histórias nos sertões do São Francisco. Uberlândia: Edufu, 2007.

NORONHA, Gilberto. Joaquina do Pompéu: Sinhá Braba ou Dama do Sertão?In: História das Mulheres e do Gênero em Mina Gerais. Florianópolis: Editora Mulheres, 2014. p.183-212.

Saiba Mais – Site:

Coleção FAMÍLIA JOAQUINA BERNARDA DE POMPÉU (FBJP). Sistema Integrado de Acesso do Arquivo Público Mineiro. Disponível em http://www.siaapm.cultura.mg.gov.br/modules/fundos_colecoes/brtacervo.php?cid=58

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