Podemos desenvolver câncer de pele mesmo na sombra

Por Andréa Chaves e Renata Kiatkoski Kaminski                                                                       Instituto de Química – UFG e Dpto. de Química – UFS

Renata e Andrea - FiguraA busca pelo bronzeado perfeito tem contribuído para o aumento da exposição aos raios UVA e UVB. Estas radiações podem ocasionar mutações no DNA, as quais são constantemente relacionadas à prevalência de câncer de pele. No entanto, a ideia de sentar sob a sombra de um guarda-sol, após um banho de mar ou de piscina, parece relaxante e inofensiva para nossa pele. Mas não é bem assim, um grupo de cientistas demonstrou nas suas pesquisas, publicadas na revista Science (03/2015), que as células da nossa pele apresentam uma espécie de ressaca pós-sol que pode durar horas,mesmo no escuro (ou na sombra).

O câncer de pele é o mais frequente no Brasil e corresponde a 25% dos tumores malignos registrados no país, segundo dados do INCA. Os casos crescem a cada ano e esse crescimento tem sido correlacionados à exposição aos raios UVA, seja em camas de bronzeamento artificial (mais comuns no EUA), ou mesmo pela maior exposição ao sol encorajada pelo uso de protetores solares. As radiações solares podem ser divididas em UVA, UVB e UVC. A UVC normalmente fica retida pela camada de ozônio, sendo assim, a UVA e a UVB são as que mais preocupam por serem responsáveis pela indução do câncer de pele e fotoenvelhecimento. A radiação UVB, que constitui aproximadamente 5% da radiação que chega a superfície da Terra, é responsável pelo bronzeamento e por danos imediatos à pele, os quais resultam em vermelhidão e ainda podem evoluir para queimaduras solares. A radiação UVA é constante durante o dia e responde por 95% da radiação UV que atinge a superfície da Terra, ou seja, com relação aos raios UVA não temos aqueles horários em que é mais fraco, como acontece com o UVB. Ambas podem levar ao câncer de pele!

Reduzir a exposição à luz seria a prevenção mais eficaz contra o câncer de pele. Entretanto, o professor de radiologia terapêutica em Yale, Sanjay Premi observou em seu trabalho, que nos melanócitos (células responsáveis pela cor da nossa pele), uma fração substancial de DNA continua a sofrer danos mesmo no escuro, Eles conseguiram demonstrar que o esse efeito danoso persistente é dependente da melanina. Altos níveis de melanina em pessoas de pele escura sempre foram associados com a proteção contra o melanoma, devido à capacidade da melanina de absorver radiação UV e capturar radicais livres, assim prevenindo os danos ao DNA. Então temos um paradoxo: a melanina não é somente benéfica, também pode ser carcinogênica! Na verdade, existem vários tipos de melanina. As pessoas loiras e ruivas possuem uma maior quantidade de pheomelanina em sua pele e cabelos. E é esse tipo de melanina que apresenta maiores riscos, isso foi determinado por monitoramento de um tipo de alteração no DNA chamada dímeros de pirimidina (CPDs) após a exposição à radiação UV. O surpreendente neste estudo é que foi observado um aumento na concentração dos CPDs mesmo após 2 ou 3 horas da exposição à radiação UVA e UVB. Os CPDs formados no escuro apresentam um efeito mutagênico maior que os produzidos somente pela exposição aos raios UVA. A pheomelanina forma espécies reativas que quebram os filamentos do DNA, provocam reações em cascata que se mantém por horas, mesmo com as células fora do sol. Isso quer dizer que subestimamos o dano causado ao DNA pela exposição ao sol, dizem os pesquisadores. Com esse estudo eles conseguiram responder uma questão que intrigava os pesquisadores: Porque os negros albinos apresentam uma taxa tão baixa de melanoma? Sem nenhuma melanina na sua pele, eles não possuem a atividade protetiva da molécula, porém também não têm esse dano persistente depois da exposição solar, causado pela pheomelanina.

A descoberta motiva outra área de pesquisa, a dos protetores solares melhorados, contendo ativos que impedem o processo carcinogênico de ocorrer na pele quando estamos na sombra. A vitamina E (tocoferol) parece ser uma boa opção, no entanto, os cientistas acreditam que existem outras moléculas com efeito muito superior.

Mais do que nunca devemos aumentar nossos cuidados com o sol, lembrando ao leitor que a radiação UVA é constante durante todo o dia, no entanto, podemos também diminuir seus efeitos, usando protetor solar corretamente, e procurando por protetores mais funcionais, que apresentem moléculas como vitamina E na sua composição e amplo espectro de proteção.

Para acessar o artigo original, clique aqui.

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