De Darwin à medicina, uma nova  disciplina:  a medicina evolutiva

Por Rita Zilhão                                                                                                                                          Faculdade de Ciências de Lisboa – Portugal

Adapatado de Randolph M. Nesse and George C. Williams (1998) Evolution and the Origins of Disease. Sci Am Nov 1998

Em 1859, Charles Darwin publica o livro “A origem das espécies” onde expõe, de um modo bem documentado, como as espécies terão evoluído através do tempo. Deste estudo nasceu a teoria da evolução mediada pela seleção natural. A transcendência da sua obra manifesta-se na extensão com que afetou alguns aspetos centrais da pessoa, da sociedade e da ciência, surgindo inclusive uma nova especialidade, a biologia evolutiva, uma ciência básica que cruza numerosas disciplinas. Posteriormente, graças a várias descobertas, os cientistas criaram uma outra especialidade científica e médica: a medicina evolutiva. O que é, como surgiu esta especialidade e qual o objeto do seu estudo?

A medicina evolutiva pretende dar, de um modo distinto mas complementar de outras ciências, uma perspectiva nova e essencial sobre os determinantes da saúde e da doença, fornecendo hipóteses sobre muitos aspectos da biologia humana e anatomia, tentando esclarecer a origem de algumas patologias. A medicina evolutiva procura também clarificar o porquê dos indivíduos terem diferentes graus de vulnerabilidade às doenças. Oferece assim um contexto mais global sobre o qual se pode conduzir a investigação médica.

Os princípios gerais da medicina evolutiva relacionam a saúde, a longevidade e o fitness (sucesso de reprodução). A evolução humana baseia-se sobretudo no máximo de fitness e não tanto na saúde perene, ou na longevidade. Porque os organismos não são perfeitos, o papel da seleção é orientar a evolução de um traço benéfico equilibrando os benefícios deste, com os custos marginais que a aquisição desse mesmo traço possa originar. Assim, e relativamente a algumas facetas da biologia humana, veja-se a diferente perspectiva que tem sido dada em algumas situações patológicas, ou falências do corpo humano.

Vejamos o caso das infeções derivadas da competição entre hospedeiro-patógeno, em que pode resultar a febre. Independentemente do aumento do metabolismo do organismo, a febre é um aumento cauteloso da temperatura controlado pelo termostato do corpo. Apesar do desconforto que causa, a temperatura elevada facilita a destruição dos patógenos causadores da infecção. Esta reação, assim como a tosse, a diarreia, a redução dos níveis de ferro no sangue, são mecanismos de defesa e adaptação que não têm sido bem compreendidos e têm erradamente sido considerados como adaptações prejudiciais.

Noutras situações há danos devido ao desgaste provocado pelo stress ou por toxinas. É o que se observa com a náusea durante a gravidez e a alergia, que podem ser adaptações contra toxinas. A náusea matinal foi sempre considerada como um efeito secundário e indesejável da gravidez. Contudo a náusea coincide com o período da rápida diferenciação dos tecidos do feto, isto é, quando o desenvolvimento está mais vulnerável à interferência de toxinas. Assim, uma mãe nauseada tende a restringir o consumo de substâncias potencialmente prejudiciais ao seu filho. Num estudo, verificou-se que mulheres com mais náuseas tinham menos tendência a sofrer abortos espontâneos. Uma medicação anti-náusea foi considerada como responsável por defeitos do feto à nascença, não porque afetasse diretamente o feto, mas porque interferia com a náusea protetora da mãe.

E o que dizer das doenças com origem em fatores genéticos? Algumas doenças resultam da conservação de genes na evolução devido aos efeitos benéficos que esses mesmos genes têm em ambientes normais, ou numa fase precoce da vida nomeadamente até à idade reprodutora. De fato, mais tarde, numa idade mais madura, esses genes estão na origem de doenças ligadas ao envelhecimento. Também, e sempre sob o prisma das relações entre benefício e custo, um exemplo muito conhecido é o dos indivíduos portadores de uma mutação genética que provoca a anemia falciforme, mas que os protege de contraírem a malária.

O que esta nova especialidade científica e médica nos revela é que a seleção natural tende a formatar mecanismos de regulação do tipo alarme-de-fumaça: há muitos falsos alarmes, que são incomodativos e na maioria das vezes aparentemente desnecessários (ex. tosse, diarreia). Essas reações de defesa, de fato, ocorrem na maioria das vezes em resposta às ameaças insignificantes que se forem travadas por medicação, os danos causados podem ser inofensivos. No entanto, do mesmo modo que corremos um grande risco de não nos apercebermos do fogo que começou no quarto ao lado, porque removemos a bateria do alarme devido ao barulho incomodativo deste, sempre que deixamos queimar uma torrada. Poderá vir um dia em que o bloqueio dos desconfortos físicos possa ser fatal. É preciso não esquecer que estas reações foram evolutivamente selecionadas para, muito provavelmente, conferir vantagens à nossa sobrevivência!

Os exemplos, abordagens, contextualizações e explicações em torno da medicina evolutiva são vários, extremamente interessantes, e para os quais existem diversos artigos de revisão muito acessíveis recomendando vivamente a sua leitura.

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