Mães mais velhas que se exercitam podem reduzir o risco de defeitos cardíacos em seus bebês

Por Marco Augusto Stimamiglio                                                                                          Instituto Carlos Chagas – Fiocruz/PR

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Marco_adicional - FiguraNa espécie humana, o risco de um bebê desenvolver algum defeito cardíaco durante a gestação está associado com a idade da mãe. Este não é o único fator de risco, já que a pré-disposição genética, a ocorrência de infecções, a obesidade e o diabetes materno durante a gestação também podem levar ao desenvolvimento de malformações do coração do bebê (cardiomiopatias congênitas). O que ainda não se sabe é se o desenvolvimento do feto é comprometido devido à idade da mãe ou a idade do óvulo; ou ainda pela associação destes dois fatores. Pesquisadores da Escola de Medicina da Universidade de Washington desenvolveram um experimento para responder qual seria o principal fator de risco associado às malformações cardíacas gestacionais: a idade avançada da mãe ou os óvulos envelhecidos que ela carrega?

Para responder a esta questão, os pesquisadores transplantaram os ovários de camundongas jovens em velhas e os ovários de camundongas velhas em jovens. As descobertas desta pesquisa foram publicadas na primeira edição do mês de abril de 2015 da renomada revista científica Nature, na qual os pesquisadores constataram que a idade dos óvulos não importa. Ou seja, quando as camundongas pariram seus filhotinhos, as mães mais velhas, com ovários e óvulos jovens, continuaram tendo aproximadamente o dobro de seus filhotes com defeitos no coração em relação às mães mais jovens. Portanto, parece que a resposta para esta questão está relacionada à idade avançada das mães e não aos seus óvulos envelhecidos, uma vez que possuindo óvulos jovens, as mães mais velhas continuam tendo maior índice de filhotes com defeitos cardíacos.

Então a solução deste problema para as mães mais velhas seria usar uma barriga-de-aluguel mais jovem? Não necessariamente! Os pesquisadores aproveitaram o experimento para fazer outras importantes descobertas. Eles demonstraram que, se as camundongas mais velhas fossem submetidas a exercícios físicos em uma roda de corrida durante o seu período de vida reprodutiva, o incidente destas malformações no coração dos filhotes praticamente desapareciam. Os pesquisadores concluíram com estes resultados que deve existir uma cadeia de eventos biológicos nas mães que é afetada pelo exercício físico, podendo assim diminuir o risco de doenças cardíacas em sua prole.

Os pesquisadores ainda avaliaram outras variáveis relacionadas à dieta das camundongas, uma vez que em humanos a obesidade e o diabetes materno são fatores de risco no desenvolvimento das malformações cardíacas. Eles testaram o efeito de uma dieta rica em gordura nas mães mais velhas e mais jovens. Surpreendentemente, apesar da dieta rica em gordura ter levado a um grande ganho de peso e a intolerância à glicose nas fêmeas jovens, estas não tiveram maior incidência de doenças cardíacas em sua prole, em relação às fêmeas jovens alimentadas com uma dieta normal. Nas fêmeas mais velhas, a dieta rica em gordura levou a um aumento na incidência das malformações cardíacas, embora este resultado não tenha sido estatisticamente significativo, o que em ciência significa não haver comprovação do fenômeno observado.

Apesar dos resultados obtidos com este estudo, não se pode esquecer que os seres humanos e os camundongos são espécies bastante diferentes, com diversidades genéticas e fisiológicas. Essas diferenças podem, portanto, ser um fator de confusão na interpretação dos resultados de estudos em animais e dificultar a tradução da pesquisa básica para a prática clínica em humanos. De qualquer forma, estudos como estes são essenciais para o entendimento dos fatores maternos que regulam o desenvolvimento fetal. Somente através de um profundo conhecimento destes fatores e suas complexas interações é que será possível traduzir esses achados científicos para o desenvolvimento de estratégias e intervenções para a clínica humana.

Um possível exemplo dessa problemática é a prática atualmente corrente de se congelar óvulos (ou mesmo embriões) de mulheres jovens para serem reimplantados posteriormente na mesma mulher por reprodução assistida. Dentre as justificativas para a realização desta prática, está a possível vantagem ou benefício de se ter armazenado embriões ainda jovens para serem gestados quando a mulher está em idade mais avançada. Neste sentido, se os resultados do estudo da Universidade de Washington forem comprovados, valerá a pena continuar congelando óvulos ou embriões jovens para posterior reimplante? Essa é uma questão que trará implicações éticas e também financeiras!

Para cessar o artigo original, clique aqui.

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