Óvulos por toda a vida! Será o fim da infertilidade feminina?

Por Ricardo Castilho Garcez                                                                                                       Dpto. de Biologia Celular, Embriologia e Genética – UFSC

Para ouvir o áudio do texto com o autor, clique aqui.

Capa da revista New York Magazine de outubro de 2011

Capa da revista New York Magazine de outubro de 2011

O dogma de que as mulheres nascem com um número limitado de óvulos (ou melhor, células capazes de dar origem aos óvulos), está sendo desacreditado! Uma série de estudos realizados nos últimos anos estão demonstrando que diferentes populações de células-tronco são capazes de formar células da linhagem germinativa em indivíduos adultos. Inclusive, já existem trabalhos demonstrando, em modelos animais, a recuperação de folículos e ovócitos em ovários estéreis. Mas será realmente que estávamos enganados esse tempo todo?

A produção de células reprodutivas femininas, os conhecidos óvulos, inicia no período fetal, quando a menina ainda está no ventre de sua mãe. Nessa fase, é produzido um grupo de células-tronco germinativas, chamadas ovogônias. São elas que darão origem aos ovócitos e, posteriormente, ao óvulo. Ainda na fase fetal, as ovogônias inicialmente darão origem às células chamadas ovócitos primários. Ao contrário das ovogônias, que são células-tronco e, portanto, autorrenováveis (para saber mais sobre autorrenovação e células-tronco, clique aqui), os ovócitos primários são apenas progenitores. Isso quer dizer que eles só conseguem formar ovócitos secundários e não são capazes de se autorrenovarem. Aos dois anos de idade, acredita-se (ou acreditava-se) que as meninas tenham apenas ovócitos primários, não mais ovogônias, ou seja, não poderiam ser formados novos ovócitos primários, apenas maturar os que já existem. Já nos homens, as células-tronco que darão origem a toda a linhagem germinativa e, consequentemente, aos espermatozoides, as chamadas espermatogônias, permanecem por quase toda a vida.

Mas por que as ovogônias morreriam? Parece ilógico? Ou será que elas estão lá, mas escondidas?

Em 2009, utilizando técnicas moleculares, pesquisadores chineses conseguiram isolar células-tronco dos ovários de camundongos fêmeas. Estas células apresentaram comportamento semelhante às ovogônias, sendo capazes de formar novos ovócitos primários. Ao implantar essas células-tronco nos ovários de camundongos fêmeas estéreis, elas foram capazes de gerar filhotes normais (clique aqui para acessar o artigo original). Esses resultados encorajaram pesquisas com células humanas e, três anos mais tarde, um grupo de pesquisadores, do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia do Hospital Vicente de Massachusetts, conseguiu isolar células-tronco de ovários de mulheres. Essas células também foram capazes de formar ovócitos normais (clique aqui para acessar o artigo original).

A próxima pergunta que os pesquisadores se fizeram foi: Qual a localização dessas células? Por que, apesar de muito procuradas, até então elas não haviam sido encontradas?

A ideia inicial era que a fonte dessas células-tronco germinativas adultas seriam as células epiteliais da superfície externa dos ovários. No entanto, apesar de alguns artigos afirmarem isso, trabalhos posteriores ainda não confirmaram tal hipótese. Uma outra provável origem dessas células é ainda mais intrigante. Um grupo de pesquisadores do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Universidade de Ljubljana na Slovênia, liderados pela Dra. Irma Virant-Klun, demonstrou que nos ovários existe um grupo de células muito pequenas (aproximadamente 10 vezes menores que os ovócitos primários) com características genéticas que as aproximariam muito das células-tronco germinativas femininas. Eles ainda observaram que essas células, em sistemas de cultivo, foram capazes de formar ovócitos. Apesar destes dados parecerem bem consistentes, muitos pesquisadores ainda não estão totalmente convencidos. Muitos alegam que essas estruturas, nem sequer seriam células verdadeiras.

Como todo achado científico, este está sendo posto à prova. Provavelmente vai demorar um pouco para descobrirmos a origem das células-tronco germinativas femininas adultas. O mais importante dessa história toda, é a nova perspectiva que surge para o tratamento da infertilidade feminina. A possibilidade de regeneração de ovários inférteis por células do próprio paciente passa a ser uma esperança mais próxima.

Mais informações, clique aqui para acessar um artigo de revisão sobre o assunto.

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