Alzheimer, AVC, traumas cerebrais: as Jiadifenolides podem te ajudar!

Por Renata  Kaminski                                                                                                                     Dpto. de Química, UFS / Aracajú – SE

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Renata - FiguraQuando uma molécula possui um perfil biológico promissor, sua obtenção é importante. Para metabólitos (que são produtos do metabolismo de determinadas substâncias) abundantes obtidos de organismos ou plantas cultiváveis, o isolamento é a melhor opção. Para metabólitos pouco abundantes ou organismos ecologicamente frágeis ou difíceis de cultivar, a síntese da substância em laboratório (síntese química) se torna o método ideal de produção. No entanto, o trabalho dos químicos sintéticos não é tão simples quanto parece. A maioria das sínteses envolve custo elevado e muito trabalho, para um rendimento, na maioria das vezes, muito baixo. A relação custo/benefício muitas vezes pressiona os químicos a buscar métodos alternativos à síntese, como engenharia genética, cultura de células vegetais, ou síntese não-tradicionais de moléculas complexas.

Um exemplo disso são as Jiadifenolides, substâncias obtidas de arbustos do gênero lllicium, conhecido popularmente como o anis estrelado. Essas plantas são largamente utilizadas na culinária vietnamita e chinesa. Algumas espécies do gênero, como I. anisatum ou I. Jiadifengpi produzem, naturalmente, alguns constituintes com pronunciado efeito biológico. Em 2009, um grupo de cientistas chineses e japoneses isolaram uma quantidade muito pequena de jiadifenolide, de uma das espécies de planta citadas acima. Esse composto e muitos outros extraídos da mesma planta promovem uma alta taxa de crescimento de axônios e dendritos de neurônios de ratos, in vitro. Muitas pesquisas posteriores têm sugerido que esses compostos levariam a um aumento da atividade de fatores de crescimento cerebral naturais, conhecidos como neurotrofinas. As notícias parecem ótimas, mas o problema é que a extração desses compostos tem um baixo rendimento (para isolar 1g do composto seriam necessários no mínimo 117kg da planta seca, além de 226kg de sílica para isolar a molécula específica). A síntese química, que seria uma alternativa, possui mais de 20 etapas e com rendimentos, igualmente, baixos. Mas nem tudo são notícias ruins, é justamente esse rendimento que um grupo de cientistas conseguiu melhorar agora.

As neurotrofinas podem promover a regressão de doenças neurodegenerativas, como Alzheimer, acidente vascular cerebral (AVC) ou mesmo traumas cerebrais. Por essa razão, muitos cientistas buscam compostos que se comportem como neurotrofinas, ou que amplifiquem sua atividade, e mais especificamente, que possam ser ingeridas na forma de pílulas. As Jiadifenolides são moléculas pequenas, absorvidas pelo trato gastrointestinal sem serem quebradas e passam facilmente do sangue para o cérebro, por isso elas têm grande potencial para serem usadas como medicamentos orais.

Cientistas do The Scripps Research Institute (TSRI) publicaram, em junho 2015, na revista Nature uma nova rota de síntese, com oito etapas e partindo de moléculas pequenas, chamadas butenolidas, via um processo conhecido como reação de Michael. Os cientistas foram capazes de obter moléculas muito parecidas com as jiadifenolide, em escala de gramas. Produzir através dessa nova via sintética 1g permite a validação dessa molécula como possível tratamento de doenças neurodegenerativas. Além disso pode levar, daqui alguns anos, ao desenvolvimento de medicamentos baseados nessas moléculas. A utilização de moléculas simples, no processo de síntese, diminui os custos do processo e do medicamento baseado nessa molécula. Os autores da pesquisa procuram empresas interessadas em realizar os testes e, posteriormente, produzir os medicamentos.

Muitos Illicium mostram propriedades neurotróficas e todas apresentam uma unidade de jiadifenolide demonstrando a importância da síntese desse tipo de molécula e seus análogos. Alguns anos ainda devem ser necessários para os testes e melhoramentos dessa síntese, porém o sucesso nesse processo reflete o poder da química sintética atual, em preparar moléculas com potencial terapêutico encontradas na natureza em larga escala, sendo uma esperança para os que sofrem de doenças neurodegenerativas.

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