A realidade dos números: Quatro atitudes

Por Vitor Klein                                                                                                                    Pesquisador do Grupo Strategos – Esag/UDESC

O desejo humano por precisão matemática é bastante antigo. A máquina de Anticítera desenvolvida pelos Gregos do período de 205 a.C. (acima) calculava com precisão a orbita lunar, solar, mais as órbitas de cinco planetas ao redor da terra, além de ser capaz de prever eclipses lunares e solares por séculos a frente.

O desejo humano por precisão matemática é bastante antigo. A máquina de Anticítera desenvolvida pelos Gregos do período de 205 a.C. (acima) calculava com precisão a orbita lunar, solar, mais as órbitas de cinco planetas ao redor da terra, além de ser capaz de prever eclipses lunares e solares por séculos a frente.

Dificilmente conseguiríamos imaginar um debate sobre economia ou prestação de contas do governo sem o uso de números. De maneira muito evidente, números definem como enxergamos e agimos no mundo, seja por indicadores como PIB e taxa de desemprego, decisivos na condução da política econômica, ou quando assistimos a um seriado sugerido pelo Netflix com base em dados sobre nossaspreferências. Mas até que ponto números têm relação com a realidade? Com a crescente influência dos números na vida em sociedade é importante entendermos como diferentes atitudes para com a realidade dos números são produzidas.

O estatístico e historiador da ciência Alain Desrosières (2001) descreve quatro diferentes atitudes para com a realidade da estatística. A primeira ele denomina de realismo metrológico, em que se assume a existência de uma realidade permanente subjacente aos objetos mensurados, mesmo que essa realidade seja invisível e que sua mensuração varie ao longo do tempo. Em outras palavras, a realidade por trás dos números é vista sob essa perspectiva como algo tão físico quanto a altura de uma montanha e é tratada como independente do aparato usado para mensurar. O realismo metrológico tem sido um ideal perseguido por muitos estatísticos, apesar de reconhecerem que muitos dos objetos que desejam mensurar por vezes não possuem as qualidades descritas por essa atitude. A defesa desse ideal, no entanto, ocorre por uma boa razão; imagine quão importante é mensurar com exatidão a extensão de uma epidemia, os riscos ambientais causados pela poluição ou o desenvolvimento de curas para doenças. O realismo metrológico é, no entanto, uma das quatro atitudes descritas por Desrosiàres.

Uma segunda perspectiva quanto à realidade dos números é chamada de contabilidade pragmática. Diferente do realismo metrológico, predominante nas ciências naturais, a contabilidade pragmática tem unidade básica de mensuração, o dinheiro, que serve para medir receitas e gastos e na projeção de créditos e débitos. Assim, enquanto a metrologia dos cientistas naturais entende a realidade como algo físico e concreto, a realidade da contabilidade pragmática é subjetiva, pois configura-se como um conjunto de “apostas no futuro” que, apesar de apostas, não podem ser tratadas como erros ou distorções como seriam sob a perspectiva do realismo metrológico. Tais apostas são fundamentais no auxílio aos processos de decisão em empresas e governos, o que faz com que o tipo de realismo produzido pela contabilidade pragmática seja inseparável da confiança inspirada pelos números, uma confiança baseada mais na plausibilidade do que na exatidão desses números.

A terceira atitude é descrita como realismo da prova no uso. Essa atitude é típica dos usuários de dados numéricos com propósitos argumentativos, caso em que esses usuários fazem uso dos números, mas não tem acesso a produção destes. A preocupação nesse caso se restringe então em confiar nas fontes que produziram os números. E os números adquirem status de realidade na medida em que, utilizados por eles, resultam em ações concretas, como por exemplo, quando empresas estabelecem planos de ações baseadas no nível de desemprego, no PIB ou na previsão de inflação calculados por órgãos oficiais.

A quarta atitude é descrita por Desrosières como construcionismo. Essa atitude entende que a realidade daquilo que é medido é o resultado de convenções provisórias. A atitude construcionista é comum quando números são questionados, o que leva diferentes grupos a debater os critérios adequados na mensuração de determinados fenômenos. Exemplos são as negociações sobre o que deve ser levado em conta na avaliação da qualidade da educação; ou como mensurar o desempenho de diferentes unidades de negócio ou organizações públicas. Critérios provisórios são definidos por meio de compromisso e servem de guias para lidar com questões quase sempre controversas; tais critérios normalmente variam de país para país, entre regiões ou ainda dentro de grandes organizações.

Na prática, as quatro atitudes descritas ocorrem simultaneamente, especialmente quando campos do conhecimento distintos estão envolvidos na produção e utilização de números. Um exemplo de como isso ocorre é no uso dos rankings de universidades (ver ESPELAND e SAUDER, 2007). Aqueles que produzem os rankings podem assumir uma atitude pragmática e metrológica, entendendo que os dados medidos são representações neutras da realidade das universidades. Estudantes, por outro lado, podem assumir uma postura de “prova em uso”, assumindo que as estatísticas produzidas são reais na medida em que influenciem sua contratação no futuro. Administradores das universidades podem, por um lado, questionar os rankings sob o pretexto de que os números não refletem a qualidade de sua instituição, mas por outro lado, podem se sentir incentivados a incorporá-los às suas práticas de maneira a atrair recursos, fazer propaganda e convencer seu público alvo. Ou seja, uma mensuração aparentemente simples pode produzir relações sociais complexas com efeitos práticos diversos para o público envolvido, mostrando que números envolvem mais do que a mera representação de uma realidade. Entender as complexas relações entre diferentes atitudes para com a realidade dos números e os efeitos práticos resultantes é cada vez mais importante na medida em que PIB, índices de desemprego, inflação, notas de risco têm se tornado os principais artifícios pelo qual a vida em sociedade é governada.

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