Vírus Zika e microcefalia X Comprovação científica

Por Ricardo Castilho Garcez                                                                                                       Dpto. de Biologia Celular, Embriologia e Genética – UFSC

Ricardo G - figuraAté o momento, existem fortes indícios de que o vírus Zika seja a causa do aumento no número de casos de microcefalia registrados no Nordeste do Brasil em 2015. No entanto, ainda não temos uma comprovação científica dessa relação! A mistura de informações sensacionalistas, ignorância e busca por audiência, tem criado uma rede fantasiosa de informações sobre a relação do vírus Zika com a microcefalia.Sou professor de Desenvolvimento Craniofacial da Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC e pesquisador envolvido no estudo da relação do vírus Zika com a microcefalia e, nesse texto, vou tentar esclarecer aos leitores do CDQ quais são os fatos científicos que temos sobre o assunto, até a data da publicação deste texto.

O primeiro ponto que deve ficar claro é que um fato científico deriva de uma descoberta cientificamente comprovada. Isso quer dizer que a pesquisa que deu origem a essa descoberta seguiu os seguintes passos: 1) o fenômeno, ou o problema, é observado, rigorosamente documentado e, então, uma hipótese científica para explicá-lo é elaborada; 2) utilizando uma metodologia que outros pesquisadores possam reproduzir, testa-se experimentalmente tal hipótese; 3) os resultados obtidos são analisados por outros cientistas da área e, se aceito, são publicados em revistas científicas. Existe ainda um quarto passo, esse as vezes bastante demorado, mas importantíssimo: a reprodução da descoberta e aceitação desta pela comunidade científica. Para exemplificar, publicamos aqui no CDQ no início de 2014 um caso famoso de uma descoberta que seguiu os 3 primeiros passos, mas no quarto não passou, sendo caracterizada uma fraude científica (CDQ 18-03-2014).

Agora vamos aos fatos que temos sobre a relação do vírus Zika com a microcefalia. O aumento no número de mulheres infectadas com o vírus Zika que tiveram filhos com microcefalia é o que mais ouvimos falar nesses últimos meses. Além disso, foi encontrado o vírus Zika no líquido amniótico de algumas pacientes que apresentaram fetos microcefálicos. Notem que isso são observações registadas por médicos, tudo muito bem documentado, ou seja, está sendo cumprido o primeiro passo necessário para uma descoberta científica. Entretanto, as demais etapas ainda não foram cumpridas, isso quer dizer que o que temos até o momento são apenas indícios. Pelos números apresentados (clique aqui para acessar os registros do Ministério da Saúde brasileiro), a correlação entre o vírus Zika e a microcefalia é um indício forte, mas nada cientificamente comprovado ainda. É aqui que mora o perigo! Baseadas nessa “não comprovação científica”, as mais extravagantes notícias sobre o assunto começam a pipocar, todas correlacionando algo do tipo: aumentaram os casos de microcefalia no mesmo período de aplicação de uma determinada vacina. Ou então, aumentaram os casos de microcefalia na região onde utilizam um determinado agrotóxico, ou larvicida. Enfim, poderíamos citar várias! O problema é que todas elas carecem de registros precisos e de análises criteriosas. Nosso leitor mais atento, com certeza, está agora se perguntando: mas essas correlações, por mais absurdas que pareçam, não poderiam ser também hipóteses a serem testadas? Uma hipótese científica é baseada em dados sólidos, observações feitas com muito rigor, utilizando sempre o conhecimento prévio sobre o assunto para embasá-la. Como escreveu Karl Popper em seu livro a Lógica da Pesquisa Científica: “Pois não exijo que todo enunciado científico tenha sido efetivamente submetido a teste antes de merecer aceitação. Quero apenas que todo enunciado científico se mostre capaz de ser submetido a teste”. Caso contrário, poderíamos testar, por exemplo, o efeito do turismo sobre a microcefalia, pois os casos de microcefalia no nordeste brasileiro aumentaram, exatamente, no mesmo período do ano em que aumentou o número de turistas nessa região!

Como vocês devem estar imaginado, seguir os passos descritos acima para que tenhamos uma comprovação científica sobre a correlação da infecção pelo vírus Zika com a microcefalia vai demorar, mas já começam a aparecer as primeiras evidências científicas. Em fevereiro de 2016, um grupo de pesquisadores eslovênios conseguiram identificar a presença do vírus Zika no cérebro de um feto com microcefalia. A paciente grávida era uma eslovena que morava na região nordeste do Brasil. Além disso, esse trabalho demonstrou (usando o método científico) que nenhum outro vírus pesquisado foi encontrado. A presença do vírus Zika no cérebro desse feto com microcefalia não prova a hipótese da correlação do Zika com a microcefalia, mas fornece um importante passo nessa direção. O trabalho foi desenvolvido pelo grupo da Dra. Tatjana Avšič Zupanc, na Universidade de Ljubljana – Eslovénia, ele pode ser acessado clicando aqui.

Por outro lado, o fato de algumas pacientes infectadas pelo vírus Zika não terem filhos com microcefalia acrescenta um importante viés a essa história. Mas só conseguiremos entender isso tudo quando conhecermos os mecanismos moleculares envolvidos nesse processo. Para tal, seria necessário que o Ministério da Saúde e o Ministério da Ciência e Tecnologia do Brasil elaborassem uma estratégia de resposta coordenada. Deveriam, primeiramente, reunir os cientistas brasileiros para discutirem juntos como abordar o assunto, que estratégias deveriam ser utilizadas nas pesquisas. Até o momento, nós cientistas estamos cada um por si e sem dinheiro para pesquisa!

Esse texto foi publicado em fevereiro de 2016. Um novo texto publicado em julho de 2016 traz uma série de novas informações!

4 comentários sobre “Vírus Zika e microcefalia X Comprovação científica

  1. Ricardo, Obrigada pelo esclarecimento do assunto Zika vírus e microcefalia.
    Concordo com você “Seria necessário que o Ministério da Saúde e o Ministério da Ciência e Tecnologia do Brasil elaborassem uma estratégia de resposta coordenada. reunir os cientistas brasileiros para discutirem juntos como abordar o assunto, que estratégias deveriam ser utilizadas nas pesquisas.”

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