Retirando os vírus do banco dos réus

Por Giordano W. Calloni – Dpto. de Biologia Celular, Embriologia e Genética – UFSC

Meu caro leitor, talvez este não seja o momento oportuno para o assunto que irei abordar. Confesso que relutei em alguns momentos a escrever essa postagem justamente no momento em que o Covid19 tem ceifado a vida de milhões de pessoas ao redor do mundo.

As descobertas que lhes contarei hoje não são atuais, mas justamente gostaria de trazê-las aos holofotes para tentar tirar os vírus do banco dos réus, bem, ao menos alguns deles. Meu intuito será justamente colocar os vírus no outro lado da balança (o da vida e não o da morte) e mostrar que é graças a eles que novas e maravilhosas formas de vida surgiram em nosso planeta.

Vamos direto ao ponto: e se eu lhes contasse que provavelmente todos os animais placentários (o que inclui nós humanos) possivelmente não existiriam sem os vírus?

Primeiramente, é importante que o leitor compreenda que uma das particularidades dos vírus é que alguns deles carregam como material genético o DNA (ácido desoxirribonucleico) e outros carregam o RNA (ácido ribonucleico). A esses últimos chamamos de retrovírus. O Covid19, inclusive, é um exemplo de retrovírus, sendo outro exemplo bem conhecido o vírus do HIV. Uma particularidade de muitos retrovírus é que seu material genético, o RNA, inicialmente é convertido em DNA dentro da célula que o vírus invadiu. Para que o vírus possa se multiplicar seu pequeno DNA deve incorporar-se ao DNA da célula infectada.

Estimativas indicam que 8% do DNA humano é constituído por genes encontrados em retrovírus. Foi através da inserção de pequenos pedaços de DNA virais em espermatozoides ou óvulos que o DNA humano foi ganhando (e repassando às futuras gerações) seus 8% de genes de origem viral. E o mais incrível: alguns desses genes são encontrados tanto em macacos como em humanos. Isso prova que os vírus que nos legaram esses genes invadiram os ancestrais dos primatas.

Figura 1: Momento próximo ao reconhecimento entre as células do trofoblasto do blastocisto (em cor laranja) e camada de células mais externa (epitélio) do endométrio (em amarelo mais escuro). A massa celular interna (em azul) formará todos os tecidos do corpo do futuro embrião. Fonte: modificada de Wikimedia.

Mas para entendermos como os vírus ajudaram ou permitiram que surgissem os animais placentários precisamos inicialmente relembrar (ou aprender) algumas etapas do surgimento de um organismo. Após a fecundação, ou seja, a fusão de um espermatozoide com um óvulo, a célula formada (chamada de zigoto) irá passar por várias divisões celulares e formar uma espécie de bola, inicialmente compacta (mórula) que mais tarde se torna oca (chamada blastocisto). Na verdade, essa bola agora é “quase inteiramente” oca, pois internamente encontramos um pequeno grupo de células que se chama “massa celular interna” (ver células azuis na figura 1). É esse grupinho de células que dará origem a todas as células do nosso corpo. São as chamadas células tronco embrionárias, que talvez o leitor já tenha ouvido falar.

Mas hoje não vamos falar delas, mas sim das células que formam o revestimento externo da nossa “bola oca de células”. Essa camada externa de células denomina-se trofoblasto (em alaranjado na figura 1). Para que ocorra a implantação do futuro embrião no útero materno, as células do trofoblasto precisam reconhecer as células da parede uterina. Esse reconhecimento para fusão ocorre graças a proteínas presentes na membrana plasmática das células.

Vamos então ao que realmente nos interessa: os cientistas descobriram que dentro daqueles 8% de genes virais que fomos herdando ao longo do processo evolutivo e que hoje compõem o nosso DNA, alguns deles fornecem o código (a informação) para produzir proteínas responsáveis pelo reconhecimento das células do trofoblasto e a camada mais externa de células que está presente na parede do útero materno nesse momento (o epitélio do endométrio, indicado em amarelo mais escuro na figura 1).

Fantástico não? Isso quer dizer que a placenta que nutre e nos alimenta durante o período embrionário provavelmente jamais existiria sem os vírus. E, por consequência, nenhum animal dito placentário existiria, o que inclui os seres humanos.

Meus caros leitores, trouxe a vocês essa descoberta científica nesse momento no intuito de lhes mostrar que o funcionamento da natureza não é baseado em intenções e muito menos em juízo de valores, ou uma escolha entre bom e mau. Somos nós humanos que lhes atribuímos tais características. Nesse momento, estamos obviamente todos assustados e amaldiçoando esse vírus que tanto sofrimento e mal-estar vem nos causando. Não nos esqueçamos, no entanto, que, num passado remoto, foi graças aos vírus que estamos aqui hoje podendo não apenas amaldiçoar, mas também nos reerguer, amar e sobretudo nos reinventar.

A figura mostra um momento próximo ao processo de reconhecimento entre as células do trofoblasto do blastocisto (em cor laranja) e camada de células mais externa (epitélio) do endométrio (em amarelo mais escuro). A massa celular interna (em azul) formará todos os tecidos do corpo do futuro embrião.

Para saber mais:

Um comentário sobre “Retirando os vírus do banco dos réus

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s