Por Izabella Thaís da Silva – Departamento de Ciências Farmacêuticas – Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)
A viroterapia oncolítica é uma estratégia promissora no tratamento do câncer, utilizando vírus que infectam e destroem seletivamente células tumorais, além de estimular uma resposta imune antitumoral (para saber mais sobre o tema acesse nosso texto publicado recentemente aqui no blog e intitulado “Os vírus que combatem o câncer: uma nova esperança na terapia“). No entanto, a administração sistêmica dos vírus oncolíticos enfrenta vários desafios, incluindo a rápida neutralização pelo sistema imune, toxicidade associada a doses elevadas e penetração limitada nos tumores metastáticos, especialmente nos pulmões.
Para tentar resolver esses problemas, pesquisadores do Departamento de Cirurgia Oncológica do Primeiro Hospital da Universidade Médica da China, desenvolveram a terapia ELeOVt, que consiste na montagem de vírus oncolíticos na superfície de eritrócitos (que são as células vermelhas do sangue), protegendo-os da neutralização imunológica e prolongando sua circulação sistêmica. Os eritrócitos, por serem células do nosso próprio corpo e abundantes, servem como uma plataforma ideal para o transporte de vírus oncolíticos até os sítios metastáticos pulmonares.
Para construir a ELeOVt, os cientistas empregaram Adenovírus tipo 5 e Adenovírus 11 como modelos de vírus oncolíticos. Eles foram adicionados ao polímero polietilenoimina (PEI) com cargas positivas para unir os vírus oncolíticos negativos aos eritrócitos através de interações eletrostáticas (Figura 1). Os cientistas observaram que a ELeOVt ajudou os vírus oncolíticos a escapar da fagocitose por células de defesa mononucleadas do organismo, prolongando a circulação dos vírus no sangue além de reduzir a liberação sistêmica de citocinas (que leva a um quadro inflamatório) após sua injeção intravenosa. Além disso, a tecnologia ELeOVt reduziu substancialmente a quantidade de vírus oncolíticos livres no sangue, prevenindo assim a sua entrada no fígado com consequente destruição dos hepatócitos, o que poderia levar a um aumento considerável nos níveis de enzimas marcadoras da função hepática ALT e AST.
Além desses achados, os resultados dos testes em camundongos mostraram que a abordagem ELeOVt prolongou a meia-vida dos vírus oncolíticos, permitindo uma maior concentração viral no local das metástases, e isso, atrelado à circulação natural dos eritrócitos pelos capilares pulmonares, facilitou a liberação localizada da terapia oncolítica, aumentando a eficácia no combate às células metastáticas. Além disso, a abordagem diminuiu a exposição sistêmica aos vírus oncolíticos livres, reduzindo significativamente os efeitos colaterais fora do alvo e potencializando a segurança e a viabilidade clínica da viroterapia oncolítica.
De fato, este estudo destaca a ELeOVt como uma abordagem inovadora e promissora no tratamento de metástases pulmonares, oferecendo uma nova direção para a viroterapia oncolítica. A combinação de eficácia aumentada e menor toxicidade posiciona essa estratégia como uma potencial revolução no combate ao câncer metastático.
Fique atento pois as novidades empregando a viroterapia como terapia contra o câncer estão em constante evolução.
Para saber mais:
Liu, M., Zhang, R., Huang, H., Liu, P., Zhao, X., Wu, H., He, Y., Xu, R., Qin, X., Cheng, Z., Liu, H., Ergonul, O., Can, F., Ouyang, D., Wang, Z., Pang, Z., Liu, F. (2024). Erythrocyte-Leveraged Oncolytic Virotherapy (ELeOVt): Oncolytic Virus Assembly on Erythrocyte Surface to Combat Pulmonary Metastasis and Alleviate Side Effects. Adv. Sci., 5(2024). https://onlinelibrary.wiley.com/doi/epdf/10.1002/advs.202303907
