Um metal usado para produção de baterias poderia ser a cura do Alzheimer?

Um metal usado para produção de baterias poderia ser a cura do Alzheimer?

Por Daniel Fernandes e Gabrielle Delfrate – Departamento de Farmacologia UFSC

Se você já assistiu ao filme “Para Sempre Alice”, que rendeu à atriz Julianne Moore o Oscar de Melhor Atriz, pode lembrar da história da professora Alice, diagnosticada com Alzheimer aos 50 anos de idade. Esse filme retrata com sensibilidade a vivência de uma pessoa que descobre a doença. Aos poucos, ela começa a se perder em situações do dia a dia e, eventualmente, até nas ruas da cidade. O filme mostra de forma intensa a angústia vivida por pessoas com a doença de Alzheimer, que é caracterizada pela perda das funções cerebrais, o que afeta principalmente a memória, linguagem, raciocínio e capacidade de realizar tarefas diárias. Essa condição afeta cerca de 55 milhões de pessoas no mundo. 

Mesmo após mais de um século desde que foi identificada, a doença de Alzheimer ainda guarda segredos. Muitas das alterações que ocorrem em nossas células (mecanismos moleculares) ainda são pouco compreendidas. Atualmente, os tratamentos para a doença são focados em retardar a progressão da doença e gerenciar os sintomas, a fim de melhorar a qualidade de vida do paciente. Contudo, ainda não há um único tratamento eficaz capaz de reverter os danos causados na função cerebral. Porém, uma nova descoberta pode começar a mudar este cenário! Recentemente, Cientistas descobriram que baixos níveis de lítio podem contribuir para declínio cognitivo, tanto em roedores quanto em humanos.

O lítio é um metal versátil, amplamente utilizado na indústria. Sua aplicação mais conhecida está nas baterias de íon-lítio, presentes em diversos dispositivos eletrônicos do nosso dia a dia, como celulares. Mas além disso, nós ingerimos lítio diariamente através da água e alimento. Portanto, o lítio existe naturalmente em pequenas quantidades em nosso organismo. Apesar de ele não ser considerado um “micronutriente essencial”, como sódio ou potássio, esse metal também desempenha funções importantes. 

Recentemente, pesquisadores da Universidade de Harvard publicaram resultados promissores na revista Nature, que apontam para o lítio como uma nova esperança para o tratamento do Alzheimer. Os neurocientistas observaram que a redução das concentrações de lítio no cérebro está associada ao desenvolvimento de perda de memória. Além disso, também é possível observar o aparecimento de placas amiloides e emaranhados anormais de proteínas, sinais clássicos da doença de Alzheimer, nas imagens cerebrais de animais de laboratório com deficiência de lítio. Segundo o professor Dr. Bruce Yankner, que liderou o estudo, “A ideia de que a deficiência de lítio possa estar associada ao desenvolvimento da doença de Alzheimer é algo novo e abre caminho para uma abordagem terapêutica diferente”.

Figura 1 – Imagens do cérebro de camundongos obtidas pelos neurocientistas. A imagem da esquerda é de camundongo com níveis normais de lítio no cérebro, e possuem menos placas amiloides (em verde). A imagem da direita é de um camundongo com deficiência de lítio e demonstra maior quantidade de placas amiloides. Fonte: https://www.nature.com/articles/d41586-025-02471-4

Inclusive o que mais surpreendeu os cientistas foi que o tratamento de camundongos com um suplemento de lítio específico foi capaz de reverter essas alterações neurológicas e a perda de memória! O suplemento utilizado pelos pesquisadores foi orotato de lítio. Eles também testaram a administração de carbonato de lítio, formulação já aprovada no tratamento de pacientes com transtorno bipolar e esquizofrenia, contudo, somente a administração de orotato demonstrou resultados promissores.

Outro fato que chamou a atenção foi que a redução de lítio se tornou mais grave com a progressão da doença. Portanto, os pesquisadores sugerem um ciclo, em que a deficiência de lítio leva ao aumento das placas amiloides, as quais reduzem ainda mais os níveis de lítio. Os cientistas agora querem entender qual a causa primária da diminuição de lítio e se existe alguma influência genética.

Figura 2 – O lítio como um tratamento promissor para a doença de Alzheimer.  Imagem gerada por Inteligência Artificial ChatGTP, sob demanda personalizada dos autores.

Muitas perguntas ainda precisam ser respondidas, mas, de maneira geral, esses achados sugerem que repor as reservas naturais de lítio do cérebro pode proteger contra e,  até mesmo,  reverter a doença de Alzheimer. Vale a pena lembrar que os testes feitos em modelos animais nem sempre funcionam da mesma forma em humanos. Os autores da pesquisa inclusive enfatizam que as pessoas não devem tomar compostos por conta própria. Porém, os pesquisadores estão animados com essas descobertas. Se os resultados dessa pesquisa forem confirmados em ensaios clínicos, os benefícios para os pacientes podem ser extraordinários. “Quem sabe, no futuro, pessoas como ‘Alice’ possam ter uma nova chance!”.

Para saber mais:

Aron L, et al. Lithium deficiency and the onset of Alzheimer’s disease.  Nature. 2025 Aug 6. doi: 10.1038/s41586-025-09335-x.

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