Stranger (Science) Things: Nicotinamida pode auxiliar no tratamento dos “banguelas” como o Dustin

Por Michelle Tillmann Biz – Dpto. de Ciências Morfológicas / UFSC

Até pouco tempo atrás, a síndrome da Displasia Cleidocraniana (DCC) era praticamente desconhecida de muitos, até que Dustin conquistou corações mundo afora.

Dustin é um dos personagens principais da série “Stranger Things” que, além de muito carismático, chamou a atenção por algo inusitado para um garoto da sua idade: ele é “banguela”. O fato é que, assim como o personagem Dustin, o ator que o interpreta, Gaten Matarazzo, possui DCC.

A DCC é uma doença rara (uma pessoa afetada em cada um milhão de nascimentos), causada por um defeito no gene CBFA1/RUNX2, sendo, portanto, transmitida hereditariamente. Este gene é responsável pela regulação da diferenciação das células que formarão os ossos (osteoblastos). A síndrome afeta principalmente os ossos da face, crânio e clavícula. Dentre as características principais da DCC, estão a estatura baixa, pouco desenvolvimento da clavícula (em alguns casos até ausente), as junções entre ossos do crânio persistentemente abertas, região nasal com proporções reduzidas e aumento exagerado do diâmetro do crânio. No que tange ao desenvolvimento da face, observa-se a maxila e o dorso nasal pouco desenvolvidos e a projeção da mandíbula, fazendo-se necessárias inúmeras cirurgias para as correções esqueléticas. Até início de 2020, Gate já havia passado por quatro cirurgias, fato que partilha com seus fãs em seu perfil no instagram (@gatenm123).

Além das alterações esqueléticas, há, ainda, as alterações dentárias: há maior ocorrência da formação de dentes extras (supranumerários), além de um atraso na chegada dos dentes permanentes na cavidade oral (erupção dentária), motivo pelo qual Dustin é “banguela”, apesar de ser um jovem-adolescente.

Mas ao que parece, o tempo excessivo de “janelinha aberta” para os portadores de DCC poderá estar com os dias contados. Isso porque Cientistas Descobriram Que o uso de nicotinamida pode melhorar o tempo de erupção dos dentes permanentes em casos de DCC. Acompanhe o texto para entender mais sobre esta perspectiva da descoberta.

Os cientistas usaram um modelo animal de DCC muito conhecido: camundongos com mutação no gene RUNX2. Estes animais, assim como ocorre nos humanos, apresentam atraso na erupção dos dentes pois há uma redução do processo de reabsorção óssea (chamado de osteoclastogênese) que precisa ocorrer para permitir que o dente, que se desenvolve dentro dos ossos maxilares, chegue até a cavidade oral.

Para restabelecer a osteoclastogênese (e, portanto, a erupção dentária), os cientistas apostaram na nicotinamida, uma forma de vitamina B3 capaz de inibir a atividade de uma proteína chamada HDAC, que controla a atividade de vários genes, entre eles o RUNX2.

A osteoclastogênese é um processo regulado por proteínas que são produzidas pelos osteoblastos (como o fator estimulador de colônias 1 – CSF1), o ligante do receptor ativador do fator nuclear kappa B (RANKL) e a osteoprotegerina (OPG). Assim, alterações no gene RUNX2 alteram a capacidade dos osteoblastos em secretarem tais proteínas, e, por isso, diminui a osteoclastogênese.

Entretanto, ao utilizarem a nicotinamida, os cientistas observaram a restauração da osteoclastogênese pela mediação da expressão destas proteínas: houve um aumento significativo da expressão de RUNX2 e CSF1, e aumento da razão RANKL/OPG disponíveis. Assim, demonstraram o mecanismo molecular potencial da nicotinamida para o tratamento do atraso na erupção dentária.

Muito embora seja ainda um estudo preliminar em animais, a nicotinamida demonstra potencial para ser utilizada futuramente, em portadores de DCC. Vale levar em consideração que trata-se de uma substância já utilizada, em outras situações clínicas diferentes da DCC (tratamento do acne vulgar e afeções inflamatórias da pele, em cremes para clarear a pele, no tratamento da pelagra, como suplemento vitamínico), ou seja, não se trata de uma nova formulação que precisa ser ainda estudada, testada e validada pelos órgãos reguladores de novos fármacos, uma vez que já há segurança de sua utilização prévia, seguem-se os estudos para a confirmação da nova indicação de tratamento.

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