Controvérsia à volta da suscetibilidade à gripe!

Por Rita Zilhão

Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, Portugal

Figura 1: Diferentes epitopos (representados por diferentes cores) da hemaglutinina. Fonte: Revista PNAS

Vamos outra vez falar do vírus da gripe (influenza), mas desta vez da controvérsia à volta da diferente suscetibilidade a este vírus.

Quando somos infectados pelo vírus da gripe, o nosso corpo desenvolve uma resposta imune produzindo anticorpos contra duas das principais proteínas da superfície viral, a hemaglutinina e a neuraminidase. Mais concretamente, a resposta é contra diferentes regiões (determinantes antigênicos) de cada proteína, designados de epítopos. Esses anticorpos são produzidos por um tipo de célula imune: a célula B. Se sofrermos uma segunda infecção, as células B, agora ditas de memória, pois reconhecem os mesmos epítopos que tinham desencadeado a primeira resposta imune, são reativadas e, por essa razão, muito rapidamente esta linha de defesa do organismo impede que a gripe se “instale”.

Acontece que, frequentemente, os genes que codificam essas proteínas de superfície sofrem mutações, gerando outros epítopos. Isso permite ao vírus da gripe escapar, de alguma forma, à resposta de imune de memória… mas tendo, então, de desencadear uma outra resposta primária para essa nova variante proteica. Isto ocorre porque há uma tendência da resposta imune em focar num epítopo conservado. Dessa forma, quando o organismo se deparar com novas estirpes virais com mutações nesses epítopos conservados, isso poderá estimular uma nova oportunidade de resposta imune. Por essa razão, sempre que se apresente uma nova variante, podemos contrair gripe, repetidas vezes ao longo da vida. Ou seja, os diferentes epítopos geram, claramente, uma pressão evolutiva a nível dos anticorpos virais. Por outro lado, também é sabido que a eficiência dos anticorpos é variável, possivelmente  dependendo do grau de semelhança entre as variantes proteicas que permitem as chamadas reações cruzadas (a possibilidade de um anticorpo específico de uma variante A reconhecer uma variante A1).

Contudo, apesar de ser evidente que as respostas por anticorpos são críticas para a proteção contra o vírus da gripe, dados epidemiológicos e estudos imunológicos revelaram como ainda são controversas as razões que levam com que exposições virais repetidas moldem a evolução e a eficiência dos anticorpos através do tempo. Com efeito, observações demonstraram como a história da exposição viral tem um profundo efeito na especificidade e magnitude de resposta por anticorpos à novas estirpes de vírus. Por outras palavras, o contato cedo na vida com o vírus influenza induz respostas imunes com elevadas concentrações de anticorpos quando ocorrem exposições subsequentes com as mesmas estirpes. Este fenômeno designou-se de “pecado original antigênico”. Apesar do “pecado” poder suprimir alguns aspectos da resposta imune ao longo da vida, retratando um pouco o que foi inicialmente descrito acerca da situação das células de memória, há algumas indicações de que hospedeiros com uma imunidade pré-existente são mais susceptíveis a infeções virais do que hospedeiros naives (ingênuos), isto é, que nunca estiveram em contacto com o vírus (aliás, justamente o contrário do que acima foi dito) … o  que foi uma observação inesperada. A compreensão da dinâmica da competição das células B que estão na base do desenvolvimento das respostas por anticorpos pode ajudar a explicar estas observações.

Mas por hoje a conclusão é: hospedeiros com diferentes histórias de exposição a vírus podem ter sempre diferentes padrões de infecção ao longo do tempo, com efeitos positivos e negativos, na geração de anticorpos e como tal influenciar a evolução antigênica dos vírus. Se os vírus impõem uma evolução a nível dos anticorpos, os anticorpos, por sua vez, impõem uma forte seleção nos vírus influenza e determinam a suscetibilidade à infecção. É caso para dizer que estamos perante uma “pescadinha de rabo na boca”*!

* “pescadinha de rabo na boca” é um prato típico português em que um peixe de cerca de 15 cm é colocado a fritar com a boca a trincar a cauda e formando um círculo. Por este motivo também utilizamos a expressão na gíria quando nos queremos referir a algo sem saída, ou com características de círculo vicioso.

Para saber mais ver, acesse o artigo original, clicando aqui.

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