Proteger a Vida verde para que(m)?

Por Giordano W. Calloni – Dpto. de Biologia Celular, Embriologia e Genética – UFSC

Figura 1: Pahvo: um planeta sem Vida? Momento em que a nave USS Discovery adentra o planeta Pahvo (Fonte: Foto do próprio autor de Star Trek Discovery, Temp.1-8).

6’:55’ – Estamos dentro de uma nave e vamos nos aproximando de uma densa e exuberante mata. Detalhe: as folhas não são verdes, mas azuis.

7’:14” – Caminhando em meio às árvores a especialista Michael Burnham se apresenta ao público. Descobrimos que o planeta se chama Pahvo (Figura 1) e a tripulação da nave já está ali há 18 horas na vã tentativa de detectar alguma forma de vida.

7’:23” – A especialista, ainda em meio às árvores, nos adverte: “parece ser um planeta desabitado, mas único e, para nós, estratégico”.

7’:29” – A especialista Burnham está com os outros dois tripulantes da nave, o humano Ash Tyler e o alienígena Saru. Uma substância emerge das árvores fazendo ruídos estranhos em uma tentativa de comunicação.

9’:24” – A arma interestelar é abaixada e Saru saúda a substância: “Somos exploradores da nave Discovery, viemos em paz”.

9’:28” – Ash Tyler faz sua remarca: “Pensei que fosse desabitado”.

9’:31’’ – A especialista Burnham responde: “O equipamento não registra uma forma de vida senhor, isto na verdade não é distinguível do resto da floresta”.

O diálogo acima foi retirado da série Star Trek Discovery, Temporada 1, Episódio 8 (exibida no canal de streaming Netflix). Ao longo de cerca de três minutos reiteradamente nos é comunicado que aquelas árvores frondosas de troncos altos não representam seres vivos.

Bom, caro leitor, você pode dizer que tudo isso não passa de uma obra de mera ficção não é mesmo? E parece que o roteiro não contou com a ajuda de verdadeiros especialistas (botânicos) que ficariam indubitavelmente ultrajados com a proposta de associar uma bela floresta com ausência total de vida. Mas, então, porque deveríamos nos preocupar com isso?

Pois bem, e se eu lhes dissesse que a concepção de que vegetais não são seres vivos está presente em adolescentes de 17 anos do nosso país?

Um excelente artigo científico, publicado no início de 2019 na revista Ciência e Educação (Bauru)**, pelas pesquisadoras brasileiras Ana Flávia Vigário e Graça Aparecida Cicillini, indica isso.

Utilizando questionários, as pesquisadoras investigaram algumas concepções a respeito da Biologia Celular por parte de estudantes do ensino médio de três unidades escolares do município de Catalão (estado de Goiás). Os alunos estudavam, em sua maioria, no turno matutino e tinham faixa etária média de 17 anos. As pesquisadoras obtiveram como retorno 163 questionários respondidos, provenientes de 11 turmas.

A pesquisa é qualitativa, muito rica e ampla em detalhamentos, porém para o escopo do presente post, transcrevo as frases de dois alunos presentes no artigo científico: 1) aluno 204: “A diferença entre a célula animal e vegetal é porque a célula animal é uma célula viva, ela se mexe; a célula vegetal é morta, não mexe”. 2) aluno 317: “A [célula] vegetal só apresenta em plantas, e a animal, em seres vivos”.

Portanto, estas fontes tão distintas (os estudantes do interior de Goiás e a série Norte Americana) parecem indicar que a concepção a respeito do que é vivo ou vida é pouco nítida para muitos.

Se esse for o caso, quais seriam as implicações práticas dessa concepção equivocada? Primeiramente, se as pessoas não sabem que uma folha de alface, uma samambaia ou as árvores da Amazônia, por exemplo, são seres vivos como poderão ter a consciência da importância da sua preservação? Assim, quando as pessoas defendem a preservação das matas será que já refletiram de modo mais aprofundado o que estão defendendo na verdade? Estão defendendo a Vida ou a sua própria vida?

Muitas vezes me parece que os argumentos em prol das matas não são por elas constituírem algo vivo que mereça ser protegido e respeitado, ou seja, simplesmente por sua existência única enquanto ser vivo, mas sim pela razão utilitarista em manter a nós (animais) vivos.

Esse é um problema não apenas de Ciência, mas de Educação. Trata-se, portanto, de uma questão muito mais profunda e complexa do que simplesmente ensinar a importância de se preservar a natureza. Trata-se de ensinar inicialmente o que é a vida, nas suas mais diversas formas, e entender como suas concepções foram sendo construídas histórica, cultural e cientificamente.

Fica o alerta aos Biologistas Celulares: nosso papel é tão ou mais importante do que a dos Educadores Ambientais na tarefa de proteger a vida.

*Agradeço a Thalia Reis pela conversa que proporcionou a elaboração desse texto e por encontrar exatamente a passagem aqui descrita do seriado Star Trek.

Para saber mais, acesse o artigo original:

2 comentários sobre “Proteger a Vida verde para que(m)?

  1. Eu estou, sinceramente, mais do que surpreso, arrasado por essa informação. Ainda que não venha considerar uma planta um ser complexo, desconhecer que seja um ser vivo é impressionante. Sou escritor e em meu segundo livro – RUA 2 – pela Scenarium Plural Livros Artesanais, relato uma conversação entre um homem e uma planta. A seguir…

    A ÁRVORE
    casa 3

    Entardecer… março-ainda-verão-chuva-forte-e-repentina.
    O trânsito se complica.
    Em vários pontos da cidade… anda-se a passos lentos.
    Parado na via… o motorista olha para a árvore à sua esquerda e, aborrecido com a falta de movimento… puxa conversa:
    — Estamos todos parados. Você… parece bem mais confortável.
    Buzinas-cansaço-chuva-cansaço e as horas em seus movimentos de minutos-segundos… e ele ouve:
    — Estou certa disso: sei quem sou, onde estou e para onde vou…
    O cidadão revira os olhos… agarra firme o volante e refuta:
    — Não me parece que vá a algum lugar.
    — Você se prende à minha aparente imobilidade. No entanto, tenho consciência de tudo o que me rodeia. Nós, árvores, não precisamos nos deslocar para isso…
    O animal paralisado funga… ao se dar conta da ironia da árvore…
    — Tem consciência que foi plantada por homens e que homens podem arrancá-la a qualquer momento?
    — Você também não foi “plantado” por homens? Igualmente não podem vir desplantar a sua presença no mundo, à mercê que estamos de circunstâncias incontroláveis, a todo o momento? Você sabe para onde vai?
    Sentindo-se ainda mais incomodado que antes, parecia se alongar para uma pequena batalha.
    — Estou tentando ir para o trabalho… acaso, sabe o que é trabalhar para sobreviver?
    — Eu sou uma trabalhadora nata. O ser mais preparado para subsistir. Sou a minha própria indústria de alimento. Se me permite dizer… a questão que abordo é bem mais profunda: você sabe para onde vai, realmente?
    Sem resposta, o bípede retribuiu a questão:
    — E você, sabe?
    — Sim… eu sei!
    O ser em sua condição de criatura-pensante suspendeu a respiração por instante e ouviu:
    — Eu vou para onde estou e estou onde deveria estar. Sem essa certeza, estaria desenraizada. E é daqui que os observo em movimento errático de lá para cá, a percorrer trilhas marcadas, em busca de algo que, em verdade, vocês já têm…
    Boquiaberto, o humano emudeceu, mas ocorreu-lhe uma pergunta:
    — Porque raios estar a falar comigo? Eu converso com plantas, pássaros, cães, gatos, mas nunca antes me responderam.
    — Porque se coloca como um igual a mim. Normalmente, as pessoas sequer me notam.
    — Acredito que façamos parte do mesmo ambiente, a viver o mesmo tempo… interligados.
    — Parece que já conhece o caminho, amigo…

  2. Pingback: Proteger A Vida Verde Para Quem?* – Serial Ser

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s