Novas “velhas” descobertas sobre cromossomos e a agressividade de tumores de próstata

Por Bruno Costa da Silva – Champalimaud Centre for the Unknown/Lisboa – Portugal

Uma vez ou outra nos deparamos com conceitos científicos que apesar de serem tidos como estabelecidos, às vezes simplesmente por fazerem muito sentido frente a achados clássicos da literatura, nunca foram testados de maneira aprofundada e sistemática. Esse é o caso da associação entre mudanças no número de cromossomos com o desenvolvimento de células tumorais agressivas. Esta mudança numérica, conhecida também como aneuploidia, é uma velha conhecida das aulas de genética na escola, especialmente nos casos das síndromes de Down, Patau e Edwards, aonde se observa uma cópia extra dos cromossomos 21, 13 e 18, respectivamente.

A ideia é que, devido à sua grande propensão de acumular erros na cópia de genes, tumores seriam mais sujeitos a cometer erros de grande escala que, uma vez ou outra, levariam a mudança no número de seus cromossomos. De fato, já é sabido que tumores malignos frequentemente apresentam mudanças no número de cromossomos. O que ainda não se sabe muito bem é se estas cópias adicionais influenciam a malignidade de uma célula tumoral.

Um desafio importante na investigação dessa questão é a alta incidência de aneuploidias em tumores em geral. Isso porque é bastante difícil inferir o papel destes cromossomos extras sem ter como ponto de comparação células tumorais com números normais de cromossomos. Uma exceção a esta regra são os tumores de próstata, aonde 25% dos casos não apresenta mudança no número de cromossomos. Tendo em mente a oportunidade de poder comparar tumores com e sem aneuploidia, o grupo da Dra. Angelika Amon do Instituto de Tecnologias de Massachusetts nos Estados Unidos decidiu finalmente investigar essa questão a fundo.

Além da sua elevada incidência, tumores de próstata ainda apresentam desafios quanto a escolhas terapêuticas. Assim como em outros tumores, isso se dá, principalmente, pela dificuldade de identificar pacientes com maior e menor risco de terem um desenvolvimento tumoral agressivo. Essa limitação impacta a saúde dos doentes que, por não terem garantia de estarem livres de células tumorais agressivas, são sujeitos a tratamentos extremos e debilitantes, como a remoção total da próstata e dos testículos. Do outro lado estão doentes que, apesar de não apresentam indicação para tratamentos mais intensos por critérios atuais, vêm a ter desenvolvimento de doenças tumorais letais. Para os dois casos, o desenvolvimento de melhores testes diagnósticos poderia tanto poupar pacientes de risco baixo dos efeitos nocivos de tratamentos altamente invasivos, quanto indicar acompanhamento mais frequente e terapias mais rigorosas para pacientes com tumores mais ativos.

Nesse sentido, no trabalho do grupo da Dra. Amon, envolvendo 404 pacientes com tumor de próstata seguidos por mais de 15 anos, Cientistas Descobriram que o aumento de aneuploidias está diretamente associado com o desenvolvimento de doença letal. De fato, observou-se que os 23% dos pacientes que apresentaram cinco ou mais alterações cromossomais têm uma chance cinco vezes maior de morrer em decorrência de um tumor de próstata. O estudo ainda sugeriu que a avaliação de aneuploidias possa também auxiliar na identificação de tumores agressivos entre pacientes atualmente considerados de baixo risco. Além disso, os cientistas foram capazes de identificar que os cromossomos 7 e 8 são os mais comumente modificados nesses casos. Desta forma, no seguimento deste trabalho, eles tentarão identificar genes específicos presentes nestes cromossomos envolvidos com a agressividade de tumores de próstata. Isso poderá permitir não apenas testes ainda mais precisos, como também o potencial desenvolvimento de novas terapias.

Apesar desses achados ainda se limitarem a tumores de próstata, os cientistas tentarão utilizar a mesma estratégia para outros tumores com baixos níveis de aneuploidias, como os da tireoide, e assim também tentar auxiliar na identificação de pacientes com risco de doença agressiva neste tecido.

Para saber mais, acesse o artigo original: Aneuploidy drives lethal progression in prostate cancer

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