Danos no DNA – Nem tudo o que é mau vem por mal…

Por Rita Zilhão, Faculdade de Ciências de Lisboa, Portugal

Figura 1. Esquema das principais etapas da expressão génica e respectivos pontos de controlo. Fonte: Wikipedia

A expressão génica é o processo pelo qual a informação de um gene é usada na síntese de um produto génico funcional, como por exemplo as proteínas. Pode dizer-se que em todas as formas de vida, desde os vírus e microrganismos ao homem, passando pelas plantas, a expressão génica é a base da vida biológica. A expressão génica inclui diferentes passos (ver Figura 1). Cada uma dessas etapas encontra-se sob um “chapéu” de processos regulatórios que controlam o momento, o local (tipo de célula), a quantidade e qual o gene que vai ser expresso. Por essa razão, a regulação da expressão génica tem um papel basilar no desempenho das célula e organismos.

Ora, durante a vida da célula, o genoma (conjunto da informação genética na forma de DNA) é sujeito a vários tipos de danos que alteram a sua estrutura ou/e a sua sequência (mutações). Se por um lado essas alterações permitem a evolução das espécies, por outro é de extrema importância que as células salvaguardem o seu genoma assegurando a correcta transmissão da informação genética durante a divisão celular ou no processo de reprodução. Para que também possam ter uma ideia da importância da integridade do genoma, um dos marcos do cancro (câncer, em português brasileiro) é justamente a instabilidade genómica das células somáticas*.

As causas dos danos de DNA podem ser várias. Algumas já são sobejamente conhecidas de todos: a componente de UV da luz solar, a radiação ionizante natural ou utilizada na clínica, alguns compostos químicos adicionados aos alimentos ou inalados em diferentes tipos de fumos etc. Por outro lado, também podem ocorrer danos no DNA devido à acção de espécies reactivas de oxigénio produzidas durante respiração aeróbica fisiológica e que atacam endogenamente o DNA. E por último, também durante a duplicação do DNA (replicação) ou ainda durante o primeiro passo da expressão génica (conversão da informação contida no DNA em RNA) – a transcrição. O conhecimento da elevada percentagem de lesões a que o DNA estava exposto levou os cientistas a pensar que as células deveriam ter mecanismos que detectassem, sinalizassem e reparassem esses erros, i.e., levou ao estudo dos mecanismos de reparação do DNA.

E assim, até à última década, os danos do DNA (sobretudo quebras em sua estrutura) eram considerados como nocivos para a célula na medida em que tendencialmente geravam produtos que prejudicavam as células/organismos a ponto de os inviabilizar. E os mecanismos de reparação fariam o seu melhor! Contudo, recentemente, “Os Cientistas descobriram que…” os danos de DNA não serão sempre disruptivos, inibitórios e prejudiciais, nomeadamente no processo de transcrição, mas podem ter um papel positivo na activação da transcrição. De facto, contrariamente à ideia de que os danos do DNA estavam relacionados com o silenciamento da expressão génica, estabeleceu-se uma relação entre as quebras fisiológicas do DNA e a correcta expressão de alguns genes.

A subtileza e a elegância dos mecanismos moleculares que “zelam” pelos seres vivos nunca nos deixarão de espantar! Assim, é preciso que nós os venhamos a entender!

*Células somáticas – o conjunto de células de um organismo que não são as células sexuais (ou gâmetas)

Para saber mais:

A higiene bucal deficiente contribui muito para o câncer de boca

Por Filipe Modolo – Dpto. de Patologia, UFSC

Lactobacilos, fonte: revista Superinteressante.

Os micro-organismos que habitam nosso corpo são muito importantes para nossa saúde. Os exemplos mais famosos de micro-organismos que trabalham a nosso favor são os lactobacilos, que vivem em nosso intestino e são muito importantes para a regulação do trânsito intestinal e, portanto, para nossa saúde geral.

Nossa boca também é muito rica em micro-organismos, com mais de 700 espécies, principalmente de bactérias, que têm papel essencial nas funções da boca. No entanto, essas bactérias, quando fora de controle, também podem causar diversas doenças como a cárie, a gengivite (doença em que há inflamação gengival), a periodontite (doença em que há inflamação gengival acompanhada de perda do osso que envolve os dentes) e, por fim, a perda dos dentes.

Recentemente, cientistas descobriram que… as bactérias da boca também podem contribuir muito para a formação do câncer de boca! Continuar lendo