Regeneração de lesão de medula nervosa: um passo promissor!

Por Michelle Tillmann Biz – Departamento de Ciências Morfológicas – Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

As células-tronco são como sementes capazes de gerar novas células para os tecidos que habitam. A maioria dos tecidos do corpo possui estas células, o que garante a recuperação após uma lesão ou mesmo a reposição de células antigas por novas. 

Mas isso não ocorre no sistema nervoso. No tecido nervoso, os neurônios são células que desde o momento do seu surgimento serão as responsáveis por desempenhar sua função sem haver uma reposição por nova célula frente a uma lesão. Por isso, até bem pouco tempo era difícil falar em regeneração nervosa frente a situações críticas como lesão medular (em acidentes envolvendo a medula espinal) ou no cérebro (como no caso de falta de oxigenação). 

Digo até bem pouco tempo, pois Cientistas Descobriram Que células-tronco da polpa de dentes humanos são capazes de provocar regeneração de lesões nervosas. Por terem se originado a partir da crista neural, estas células apresentam capacidade de formar neurônios e ainda produzem uma variedade de fatores neurotróficos que favorecem um microambiente regenerativo. Duas publicações anteriores do CDQ apresentaram resultados de pesquisas científicas promissoras neste campo da regeneração nervosa usando estas células-tronco dentárias. (Leia AQUI e AQUI).

Mas as novidades não param por aí! Recentemente, cientistas descobriram que não são somente estas células que são capazes de auxiliar o processo de regeneração nervosa, mas também o meio líquido de cultura em que elas estão presentes. E isso é algo excepcionalmente promissor! Vem comigo que eu explico melhor!

Cientista segurando uma garrafinha de cultivo celular, com meio de cultura (líquido vermelho)

Para que uma célula seja cultivada em laboratório, ela é colocada em uma garrafinha de plástico especial contendo um meio líquido de cultura. Este meio contém fatores e nutrientes para que a célula possa viver, e ainda é mantida em uma estufa climatizada que simula a temperatura e condições do nosso organismo. Pois bem, enquanto está sendo cultivada a célula irá se comportar como se estivesse no organismo e com isso irá produzir e secretar no meio de cultura os elementos (biomoléculas) que lhe cabem em sua função. Ocorre que muitas destas biomoléculas são na verdade moléculas sinalizadoras que permitem o desencadear de funções biológicas importantes. Foi então que cientistas se perguntaram: poderia este meio de cultura condicionado pelas células ter um potencial terapêutico em uma lesão nervosa?

E foi assim desenvolvido um estudo: ratinhos foram submetidos a uma lesão de medula espinal por impacto e, logo em seguida foi injetado nestes meio de cultura condicionado de células-tronco da polpa dentária humana. E para a surpresa, descobriram que o meio condicionado promoveu a recuperação das funções sensoriais e motoras nos ratinhos. Além disso, ao analisarem marcadores de morte por infecção (o que pode ser uma consequência de uma lesão deste porte, chamado de piroptose), os marcadores estavam diminuídos. Ainda, houve a regeneração nervosa e redução da formação de cicatrizes no tecido nervoso.

Para melhorar a análise, os cientistas verificaram também os marcadores em linhagens celulares, usando um modelo de infecção de células nervosas (microglia BV2 submetidas à infecção por lipopolissacarídeo). Neste modelo, foi possível verificar que o meio condicionado de células-tronco da polpa dentária humana protegeu as células da piroptose inibindo a via celular responsável por este desfecho. 

Estes resultados indicam que não somente as próprias células-tronco possuem potencial terapêutico em casos de lesão nervosa, mas também o meio condicionado de células-tronco da polpa dentária humana. 

Embora se trate de um estudo em células e animais e ainda ser preciso percorrer um longo caminho entre este achado científico e a possibilidade de tratamento promissor para casos de lesões de medula nervosa, estes resultados abrem uma janela muito grande de esperança! E o CDQ segue acompanhando por mais resultados apontando nesta direção.

Para saber mais:

Conditioned medium from human dental pulp stem cells treats spinal cord injury by inhibiting microglial pyroptosis

Deixe um comentário