O Retorno do Homem Dragão?

Por Paulo César Simões-Lopes – Departamento de Ecologia e Zoologia – Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

Num post anteriori, ainda em 2022, nos perguntávamos sobre nossa espécie irmã, aquela com quem compartilharíamos um ancestral comum. Tradicionalmente essa espécie era o emblemático homem de Neandertal, aquele de nariz largo, supercílios proeminentes e pernas arqueadas. Então apareceu o enigmático Homem Dragão, descoberto na China e baseado num crânio que permanecera escondido por 85 anos, o chamado também de homem de Harbinii. Os cientistas chineses o viram como uma nova espécie de hominídeo e lhe concederam o nome de Homo longi.  E assim terminamos aquele post de 2022: “…ainda estamos no Ato número 3 e a peça a se desenrolar no palco da ciência moderna. O que mais os cientistas nos dirão nos próximos anos? … Quando partiremos para o Ato número 4?”

Como diz um slogan da moda “tudo muda, nada muda”. Com quem nós, os sapiens, partilhamos o trono de nossa linhagem evolutiva? Quem é nossa espécie irmã? Aquela com a qual temos um ancestral em comum? Sim, essa pergunta continua incrivelmente atual.

Ato número 4 (continuando o teatro da evolução humana): novas descobertas de crânios humanos antigos na Ásia roubam a cena. Os neandertais eram um produto da Europa e isto parecia confortável numa visão tipicamente eurocêntrica, mas os novos candidatos a parentes diretos estão cada vez mais postados na Ásia. 

No post de 2022 nos perguntávamos se o “homem dragão” (Homo longi) seriam os próprios denisovanos (Homo daliensis) ou se ambas as espécies seriam apenas variações da mesma entidade? O estudo de Xijun N e colaboradoresiii aponta que sim. Embora sejam crânios isolados e raros, eles compartilham caracteres cranianos e dos dentes molares, o que os coloca num mesmo ramo. Sob essa perspectiva, o homem dragão emerge como nossa espécie irmã do momento, desbancando os neandertais (e a própria Europa) do palco da evolução hominídea. Isso tudo é desafiador e desgastante, porque mudar concepções arraigadas nunca é fácil.

Até então, a data proposta para a separação dessas duas linhagens derivadas (sapiens e sua espécie irmã) ficava em torno de 146 mil anos, o que se enquadrava razoavelmente bem ao cenário comumente aceito1. Mas então vem uma nova cartada que parece uma aposta de um milhão de dólares ou melhor, de um milhão de anos. 

Um crânio compactado pelo peso do tempo e das rochas acima dele foi revelado. Um pouco depois, um segundo crânio em melhor estado de conservação foi também descoberto, ambos na localidade de Yunxian (Hubei), na China. O segundo crânio (Yuxian 2) pode ser reconstruído digitalmente e analisado por tomografia computadorizadaiv. Isto permitiu confirmar um ponto crucial e ao mesmo tempo gerou uma tempestade com relação as datas de origem.

Figura 2 – Crânio Yuxian 2 reconstruído à direita ↑

Considerando análises sofisticadas de proteômica, DNA antigo e da tomografia, os Cientistas Descobriram Que o Yuxian 2 é realmente um bom candidato a espécie irmã da nossa, reforçando a importância do homem dragão (Homo longi) nessa disputa. Porém, a descoberta trouxe um efeito colateral, digamos assim, imprevisto. A datação da camada sedimentar onde os crânios de Yuxian foram encontrados, acusa uma data muito mais antiga quebrando a cronologia com a qual já estávamos acostumados. 

Os novos cálculos sugerem que a cisão dos ramos mais derivados de homens ocorreu lá por um milhão de anos ou mais e não a 300 ou 400 mil anos!

A primeira parte da descoberta parece ter convencido muitos dos cientistas, isto é, de que o homem dragão e os denisovanos deixaram para trás os neandertais nessa disputa. Já a segunda parte é bem mais polêmica e tem atraído ceticismos. Seja como for, esta é a maneira como a ciência se move, saltando entre uma e outra revolução. Todavia há algo que já não se pode negar: a Ásia entrou de sola na disputa por nossas origens.

Este foi o Ato número 4 no teatro da evolução humana. Estamos agora em 2026 e se você se dispuser a ficar desperto por mais tempo, talvez presencie um próximo Ato…

Notas:

  1. O início precoce de uma cisão dos dois ramos terminais geralmente alcança datas de 300 ou 400 mil anos no passado. ↩︎

Para saber mais:

I. A Guerra dos Tronos: quem é esse tal homem dragão?
II. Geochemical provenancing and direct dating of the Harbin archaic human cranium
III. Massive cranium from Harbin in northeastern China establishes a new Middle Pleistoscene human lineage
IV. The phylogenetic position of the Yunxian cranium elucidates the origin of Homo longi and the Denisovans

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