LSD pode ser tão antigo quanto os dinossauros. Será que eles sabiam disso?

Por Elisandro Ricardo Drechsler-Santos                                                                                    Prof. Depto. de Botânica e PPGFAP – UFSC

Imagem retirada do artigo científico original. Mostra a espigueta da gramínea envolta pelo âmbar, onde é possível ver no ápice da pequena flor uma estrutura negra (esclerócio do fungo), parte reprodutiva Palaeoclaviceps parasiticus.

Imagem retirada do artigo científico original. Mostra a espigueta da gramínea envolta pelo âmbar, onde é possível ver no ápice da pequena flor uma estrutura negra (esclerócio do fungo), parte reprodutiva Palaeoclaviceps parasiticus.

Um trabalho recentemente publicado no periódico científico internacional “Palaeodiversity” despertou a imaginação de muitos e popularizou, como reação em cadeia por dezenas de sites, uma suposta ligação entre dinossauros e drogas alucinógenas. A discussão sobre componentes psicotrópicos no cretáceo e o possível uso destas drogas por dinossauros parece ser uma boa manchete na internet.

Deixando de lado as especulações, vamos aos fatos. Um grupo internacional de cientistas fez uma interessante descoberta em um âmbar fóssil em Myanmar (ou Birmânia), país asiático próximo à Tailândia, Índia e China. Este âmbar de cem milhões de anos é uma resina fóssil que preservou uma gramínea infectada por um fungo, teoricamente o primeiro ou mais antigo de um grupo de fungos chamado Claviceps, que atacam o centeio, trigo, cevada, aveia, milho, sorgo e pastagens em geral. Pelas análises dos registros fósseis esse fungo e a planta viveram no mesmo período que os dinossauros, durante o Cretáceo e possivelmente o Jurássico. Se esse fungo fosse encontrado hoje seria classificado como uma espécie de Claviceps, mas por se tratar de um fóssil, foi determinado como tal. Por isso os cientistas nomearam sua descoberta de Palaeoclaviceps parasiticus (Palaeo = antigo + claviceps = fungo Claviceps e parasiticus = parasita). Os fungos Claviceps são responsáveis por grandes perdas nos cultivos de grãos, mas suas toxinas produzidas são ainda mais perigosas, pois podem causar o ergotismo. Esta é uma doença que afeta homens e animais que se alimentam desses grãos contaminados, causando delírios, dores, convulsões e até a morte. Como os próprios autores do trabalho comentam, estes fungos estão entre os que tiveram um grande impacto histórico nas sociedades. Por um lado salvando vidas, pois produzem centenas de diferentes componentes químicos, que têm sido utilizados para tratar desde complicações no parto até distúrbios psiquiátricos, mas que, por outro lado, podem causar a morte de milhares de pessoas, como aconteceu na Idade Média. Durante períodos de fome, por exemplo, na França em 994 DC, o pão feito a partir de grãos contaminados foi responsável por mais de 40 mil óbitos. Ainda, é possível sintetizar a partir de toxinas específicas (alcaloides) da espécie Claviceps purpurea uma das mais populares drogas alucinógenas recreativas, o LSD (lysergie acid diethylamide), que embora seja ilegal pode ter aplicabilidade medicinal psiquiátrica.

Bem, é possível que o Palaeoclaviceps parasiticus tivesse a capacidade de produzir alcaloides como o LSD e que alguns dinossauros herbívoros (que se alimentavam de plantas), como por exemplo, os saurópodes, pudessem ter ingerido gramíneas infectadas. No entanto, se essa era uma prática recreativa desses dinossauros nunca iremos saber, até mesmo porque não é possível constatar se estas toxinas naturais causavam um efeito alucinógeno nos dinossauros. Sendo assim, essa possibilidade de uso de LSD por dinossauros não deve merecer tanta popularidade, ou pelo menos não deveria ser mais interessante do que a real descoberta. O importante dessa descoberta é que nos dá informações sobre a história evolutiva das gramíneas, que são a base da alimentação humana (milho, arroz ou trigo). Assim como mostram que os fungos Claviceps são tão antigos quanto as gramíneas, seja como uma toxina ou alucinógeno natural. Esse registro fóssil, além de ser um marcador da idade destes organismos no planeta, também representa o quanto antiga é essa relação parasítica, ou seja, as evidências mostram que esses fungos e plantas já vivam juntos há milhares de anos.

Poinar jr. G., S. Alderman & J. Wunderlich. One hundred million year old ergot: psychotropic compounds in the Cretaceous? Palaeodiversity 8: 13–19; Stuttgart 30 December 2015.

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