Big Brother Ecológico: madeira transparente pode substituir paredes e vidros em nossas casas!

Por Bruno José Gonçalves da Silva                                                                                                    Prof. Dpto. de Química – UFPR

Instituto Real de Tecnologia KTH da Suécia/Divulgação visto através da madeira transparente.

Instituto Real de Tecnologia KTH da Suécia/Divulgação visto através da madeira transparente.

Rotineiramente vemos nos noticiários alguma descoberta fascinante que diz respeito à busca por energias renováveis que supram as necessidades cotidianas de todo o mundo. Exemplos disso são as usinas eólicas e as tão estudadas células solares, que foram apresentadas aqui mesmo no “Cientistas descobriram que…” em postagem realizada, no dia 03 de maio de 2016, pela Profa. Keli Fabiana Seidel, da UTFPR. É um tema que sempre desperta a atenção dos pesquisadores, tanto pelo apelo ambiental quanto comercial envolvido na aplicação industrial desses novos materiais.

Pois bem, o assunto de hoje está bastante relacionado com esse tema: energia! Mais precisamente, a economia de energia. A novidade é que pesquisadores suecos do Instituto Real de Tecnologia (Estocolmo, Suécia) criaram uma versão moderna e futurista de um dos materiais mais resistentes e baratos usados em construção civil em todo o mundo: a madeira. Trata-se de uma madeira transparente, que poderá substituir o vidro e paredes na fabricação de estruturas como janelas e fachadas de casas e prédios comerciais e assim, reduzir de forma significativa os custos com gastos de energia. A perspectiva é de que, em alguns anos, além de deixar os ambientes de nossas casas com uma iluminação cada vez mais natural, seja possível também transformar essas estruturas (janelas e paredes) em painéis solares! Esta novidade interessa especialmente a nós brasileiros, pois temos muitas regiões com ótimas condições climáticas para o uso da energia solar!

Segundo o líder da pesquisa, Lars Berglund, “a madeira transparente é um excelente material para substituir o vidro na confecção de painéis solares, uma vez que ela é produzida a partir de um recurso barato, abundante e renovável”. Para criar a madeira transparente, os pesquisadores desenvolveram um processo químico capaz de remover um dos principais constituintes da madeira natural, a lignina, que faz parte da parede celular da madeira. É justamente essa substância que os produtores de celulose e papel querem fora da madeira para deixar o papel bem branquinho. Ou seja, papéis mais escuros, como o papel pardo e o papelão, possuem uma grande quantidade de lignina. A ideia, portanto, é deixar a madeira inicialmente branca e depois revestí-la com um polímero transparente com propriedades ópticas. O efeito da transparência é então obtido através de tecnologias de manipulação em nanoescala, ou seja, em escala atômica e molecular. Por fim, o resultado é uma lâmina de madeira natural, mas visualmente transparente!

Nesse estudo, os pesquisadores suecos utilizaram a madeira extraída do pinheiro comum e de outra árvore conhecida como pau-de-balsa, mas ainda segundo Berglund, qualquer tipo de árvore pode ser usado. É verdade que alguns protótipos de madeira transparente já foram desenvolvidos anteriormente em escala microscópica, com intuito de estudar a constituição da madeira, mas essa pesquisa desenvolveu pela primeira vez um método para utilização desse material em escala comercial. A descoberta foi publicada na revista científica Biomacromolecules, da Sociedade Americana de Química (American Chemical Society), em março de 2016.

Com relação às suas vantagens, a madeira, além de ser um recurso renovável, também oferece excelentes propriedades mecânicas, como alta resistência, baixa densidade (o que confere leveza ao material) e baixa condutividade térmica. É justamente essa última característica que poderá proporcionar um bom isolamento térmico diante de mudanças extremas de temperatura, além da possibilidade de entrada de luz natural ao ambiente da casa ou prédios! Por isso, espera-se reduzir os custos energéticos domiciliares, como aqueles oriundos de luz elétrica, condicionadores de ar e aquecedores de água.

É um começo bastante interessante e promissor de aplicação, mas os pesquisadores ainda querem desenvolver novas tecnologias para aumentar ainda mais o grau de transparência da madeira necessário para converter as janelas e paredes em painéis solares de baixo custo e alta eficiência. Mas não se preocupem com a ideia de que nossos lares do futuro possam ficar tão expostos aos olhos de curiosos, pois a sugestão é que a substituição de paredes comuns de tijolos seja pela madeira semitransparente, que garante a entrada de iluminação e ao mesmo tempo mantém a privacidade dos ambientes. Cabe a nós esperarmos ansiosamente pelos avanços nessa área e que nenhum pica-pau atrapalhe os planos dessa pesquisa…

Para acessar o artigo original, clique aqui.

3 comentários sobre “Big Brother Ecológico: madeira transparente pode substituir paredes e vidros em nossas casas!

  1. A ideia é bem interessante, mas até onde sei, o processo de branqueamento do papel, que seria o mesmo a ser utilizado para iniciar o “transparecimento” da madeira, é altamente poluente. Seria mesmo um bom investimento? Como ficaria essa balança?

    • Olá Silvia, primeiramente agradecemos sua participação aqui no Blog! Sua consideração é bem pertinente, já que nos dias atuais existe uma grande preocupação com a “química verde”, especialmente na busca de processos químicos mais brandos. O processo clássico de branqueamento do papel (celulose), que basicamente consiste na retirada da lignica, realmente tem caráter poluente e alto custo envolvido. Porém, os autores da pesquisa não detalham muito sobre este processo (até pelo sigilo parcial da pesquisa), mas indicam se tratar de um processo novo, e a princípio, de escalar de laboratório. Justamente por isso, os estudos referentes não só à retirada da lignina da madeira quanto o de manipulação molecular para o efeito de transparência ainda estão em curso! Como todo início de pesquisa no desenvolvimento de novos materiais, ainda temos muito o que avançar, mas um novo horizonte está aberto, na minha opinião. E que seja um caminho que respeite o bom senso de custo e principalmente de uso consciente da nossa matéria prima. Espero ter esclarecido um pouco Silvia…um abraço, Bruno.

  2. Pingback: Cientistas descobriram que…

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