Batatas, esponjas e gravetos: a cultura fora do sapiens!

Por Paulo César Simões-Lopes- Departamento de Ecologia e Zoologia – UFSC

Como não poderia deixar de ser, os hábitos humanos, as capacidades adquiridas e os costumes, se desenvolveram desde tempos imemoriais e forjaram a cultura do sapiens. O próprio conceito original de “cultura” deve-se a um antropólogo, Edward Tylor. Isto acabou valorizando a visão humana do conceito, isto é, o tal “Adão” continuou a pensar cada vez mais no próprio umbigo.

Mas então os Cientistas Descobriram Que uns passarinhos ingleses discordavam desse monopólio, passando a desenvolver costumes de abrir garrafas de leite deixadas nas portas das casas e beber a nata. O costume espalhou-se pela população desses passarinhos, mas não por outras espécies que compartilhavam o mesmo ambiente.

O macaco japonês, também inventor do ofurô, deu aos cientistas novos e bons argumentos de comportamento cultural. Os cientistas que os estudavam se viram numa “sinuca de bico”, quando um inverno terrível começou a matar de fome os “seus” objetos de estudo. Batatas foram lançadas na praia para salvar os famintos macacos e então o inesperado aconteceu. Uma jovem e inventiva fêmea (sempre elas hein!), passou a lavar as batatas num riacho, enquanto os outros macacos as comiam com areia.

Até aí tudo bem. Alguns de nós são mais inventivos que outros e isso não é cultura, mas então os seus amigos da mesma idade passaram a copiá-la e depois, cada vez mais, outros macacos o fizeram… Fato é que após nove anos todos os macacos do grupo tinham adquirido e aperfeiçoado o hábito, inclusive passando a lavar as batatas no mar (Culturas, evidentemente, se transformam ao longo do tempo). Mas o mais excitante dessa descoberta foi que os últimos a “aceitarem a novidade” foram… (suspense!…) justo os machos adultos e mais velhos, ora, ora.

Nossos parentes mais próximos, os chimpanzés, também deram aos cientistas quilos de argumentos a favor de uma cultura material e de condutas culturais fora do âmbito do sapiens. Os cupins constroem ninhos enormes e de alta resistência, ninhos bem difíceis de quebrar. Você pode chuta-los a vontade e só machucará os pés. Pois bem, alguns chimpanzés passaram a escolher e preparar, meticulosamente, gravetos e transforma-los em palitinhos de comer, tipo palitos japoneses, ou ainda em varinhas de pescar, que são enfiadas no cupinzeiro trazendo para fora as “apetitosas iguarias”.

Há também os chimpanzés que quebram coquinhos de palmeiras escolhendo martelos e bigornas apropriadas. Alguns grupos usam pedras e outros madeira e os tais comportamentos são fixados na população, assim como os tipos de material utilizados. E, se quisermos ir mais longe, encontraremos grupos de macacos prego, nada aparentados conosco, que usam marretas para quebrar coquinhos ou elaborados métodos para abrir moluscos bivalves nos manguezais. Em todos esses casos os comportamentos aprendidos se fixam na população.

É claro que a cultura do sapiens tem seus refinamentos como a própria escrita deixa claro, mas nossa espécie viveu muito mais tempo sem a escrita, a agricultura, a domesticação, a arte e as leis do que com essas benesses. O que os cientistas descobriram é que nada disso é necessário para descrever o comportamento cultural. Cultura seria então um comportamento adquirido (novo) e que se espalhasse por parte substancial da população e passasse entre gerações1, como acontece com os quebradores de coquinhos e pescadores de cupins com seus esmerados palitinhos.

Mas se a ideia é a de que o comportamento cultural tenha surgido na linhagem dos primatas, a cerca de 60 milhões de anos, ledo engano! Na Austrália, um paraíso de águas claras, os Cientistas Descobriram Que golfinhos desenvolveram uma técnica especializada, arrancando e segurando com a boca esponjas marinhas para proteger o focinho, enquanto procuram presas enterradas na areia2. E no Brasil, parte dos golfinhos de Laguna, SC, desenvolveram uma técnica requintada de encurralar cardumes migratórios de tainha contra a margem das lagoas e induzir os pescadores a lançar suas tarrafas. Essa técnica exigiu formidável sincronia e comportamentos padronizados ou repetitivos, que se espalharam por pelo menos metade da população de golfinhos, ao longo de gerações, conferindo a esses praticantes mais eficiência de captura e sucesso reprodutivo3.

Sintetizando: o comportamento cultural é mais antigo do que o surgimento dos primatas. Os novos hábitos se espalham pela população e entre gerações, não sendo necessário envolver todos os membros da sociedade, assim como nem todas as pessoas falam línguas estrangeiras nem dirigem na mão inglesa. Embora a cultura possa iniciar com um ato de genialidade do inovador, ela só se torna cultura ao espalhar-se verdadeiramente. Assim, o gorila do Congo que usava uma vara para medir a profundidade do rio é o gênio inovador, mas o ato poderá ou não se transformar em comportamento cultural ou tradição.

Artigos utilizados na elaboração desse texto:

  1. Cultural evolution of behavior
  2. Why do dolphins carry sponges?
  3. Clues of cultural transmission in cooperative foraging between artisanal fishermen and bottlenose dolphins, Tursiops truncatus

2 comentários sobre “Batatas, esponjas e gravetos: a cultura fora do sapiens!

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