Fechando a ferida que nunca cura: O papel de Myc na formação de tumores

Por Bruno Costa da Silva – Champalimaud Centre for the Unknown/Lisboa – Portugal

Fonte: BioRender

Avanços obtidos nas últimas décadas na compreensão sobre como tumores crescem e causam doenças já apresentam resultados visíveis no desenvolvimento de tratamentos novos e mais eficientes para pacientes com câncer. Apesar disso, o nosso conhecimento sobre como tumores surgem ainda é insuficiente, o que nos impede não apenas de prevenir, mas também de reverter em muitos casos a formação de cânceres malignos. Uma noção que permeia o pensamento de muitos oncologistas e oncobiologistas é a de que tumores se formam em decorrência de uma “irritação crônica”. O primeiro a propor esta hipótese foi o patologista alemão Rudolf Virchow (também conhecido como o pai da patologia celular) no ano de 1858, ao dizer que a formação de tumores se daria a partir de lesões térmicas, químicas e/ou mecânicas crônicas. Só depois de 128 anos, com base nesta primeira observação, é que o patologista americano Harold Dvorak propôs a ideia de que tumores são como feridas que nunca curam. Mais especificamente, diversos eventos que observamos na resolução de uma ferida, como o aumento de fluxo sanguíneo e de infiltração de células do sistema imune (que costuma resultar na vermelhidão que vemos em feridas recentes) estão também presentes em lesões tumorais. Enquanto em uma cicatrização estas mudanças desaparecem, em tumores estes processos persistem por anos e desempenham um papel essencial na biologia destas células malignas.

Um dos exemplos mais marcados do envolvimento de células não tumorais em cânceres é o de tumores de pâncreas, onde até 90% das células presentes em uma massa tumoral são não cancerígenas, incluindo vasos sanguíneos e células do sistema imune. Tendo em vista as diversas semelhanças entre tecidos lesionados em recuperação e massas tumorais, surge a pergunta, tida por alguns como o santo graal da oncobiologia: Por que e como tumores e lesões teciduais são tão parecidas? Tomando como base estudos iniciados por outros grupos na primeira metade da década de 80, em um trabalho liderado pelo biólogo britânico Gerard Evan e publicado na revista americana Cancer Discovery em abril de 2020, Cientistas Descobriram Que um gene relacionado com o reparo de tecidos serve como interruptor para ligar/desligar lesões de tumores de pâncreas.

            A literatura científica atual suporta que tumores são formados a partir de mutações no DNA que, quando acumuladas, resultam no crescimento celular descontrolado e na formação de lesões tumorais malignas. Entretanto, mesmo quando uma mutação altamente recorrente está presente (como a do gene KRAS em tumores de pâncreas), não há garantia de que haverá formação de células com comportamento tumoral. Cientistas do grupo do Dr. Evan perceberam que em tumores de pâncreas, assim como em cenários de reparo tecidual, havia ativação marcada de uma proteína chamada de Myc, que costumeiramente regula a reprodução de células. Vale ressaltar que Myc se encontra normalmente inativo em boa parte das células adultas, sendo reativado quando há necessidade de se gerar mais células em um tecido.

            O grupo do Dr. Gerald viu que células inicialmente não tumorais, apresentando apenas mutações no gene de KRAS, passaram prontamente a apresentar comportamento maligno com a ativação de Myc. Mais do que isso, lesões tumorais estabelecidas de pâncreas, que são altamente agressivas e letais, regrediram como em um passe de mágica em poucas horas quando a proteína Myc foi desativada. Vale ressaltar que se observou pronto aumento e diminuição da presença de células associadas a tumores quando Myc foi ativado e desativado, respectivamente. Outro dado importante apresentado neste trabalho é que esse processo também acontece em tumores pulmonares, e provavelmente em diversos outros tipos tumorais. Visto que já há drogas em desenvolvimento capazes de inativar a proteína Myc em tumores, temos motivos para acreditar que em breve poderemos ter opções adicionais baseadas no controle do estado de ativação de Myc para o tratamento de pacientes oncológicos.

Para acessar o artigo original: MYC Instructs and Maintains Pancreatic Adenocarcinoma Phenotype.

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