Uma doce batalha: como o consumo de açúcares define a resposta de tumores a imunoterapias

Por Bruno Costa da Silva – Champalimaud Centre for the Unknown/Lisboa – Portugal

Como fruto dos trabalhos de James Allison e Tasuku Honjo, premiados com o prêmio Nobel de Medicina em 2018, um número crescente de pacientes com câncer tem tido acesso a uma nova modalidade de tratamento antitumoral, chamada de imunoterapia. O princípio destas terapias é bloquear o que inibiria a ação antitumoral do sistema imunológico. Apesar de produzir resultados bombásticos em muitos doentes, estas terapias são ineficazes para um número considerável de doentes. Por este motivo, um dos tópicos mais investigados na área de imuno-oncologia é a base biológica para o funcionamento ou não de imunoterapias. A ideia é compreender porque alguns pacientes não respondem a imunoterapias para então ter a oportunidade de desenvolver estratégias para contornar esta resistência.

Fonte: BioRender.com

            Em um trabalho publicado na revista britânica Nature em 15 de fevereiro de 2021, liderado pelos Doutores Taha Merghoub, Jedd Wolchok e Roberta Zappasodi (todos do instituto estado-unidense Memorial Sloan Kettering), investigou-se como o açúcar, um recurso disputado tanto por tumores quanto por células do sistema imunológico, pode desempenhar um papel na resposta a imunoterapias. Os Cientistas descobriram que quanto maior o consumo de açúcar por células tumorais menor é a eficácia de imunoterapias. Como evidência disso, o trabalho descreve que o bloqueio do consumo de açúcar por células tumorais aumenta a quantidade de açúcar à disposição de células imunes e, consequentemente, também aumenta a resposta a imunoterapias. Em experimentos feitos com tumores de mama em camundongos, observou-se que o bloqueio do consumo de açúcar por tumores aumentou o efeito de imunoterapias, diminuiu a quantidade de metástases e, consequentemente, aumentou a sobrevida dos animais. Os investigadores estudaram ainda a captura de açúcar em pacientes oncológicos. Neste estudo, observou-se que quanto maior o consumo de açúcar por células tumorais, menor a quantidade de células imunes presentes nos tumores.

            Em uma análise mais detalhada, os investigadores viram que o açúcar atua de forma oposta em diferentes células do sistema imune. Enquanto a disponibilidade de açúcar aumenta, a atividade de células antitumorais (chamadas de células T efetoras) também diminui a ação de células imunológicas que comumente “freiam” a ação antitumoral (chamadas de células T reguladoras). O resultado final é que, com a devida disponibilidade de açúcar, as células imunes coordenam suas respostas para maximizar a ação antitumoral.

            Cabe, entretanto, ressaltar que neste trabalho os investigadores lançaram mão de ferramentas genéticas para bloquear o uso de açúcar por células tumorais antes mesmo que essas fossem injetadas nos animais. Entretanto, na prática clínica ainda não é fácil utilizar ferramentas genéticas especificamente em células tumorais (aliás, o dia que conseguirmos fazer isso de forma eficiente teremos um enorme trunfo a ser utilizado em terapias antitumorais). Uma possível estratégia seria utilizar drogas existentes que são capazes de bloquear o consumo de açúcar por células em geral. Entretanto, como estas drogas não distinguem tumores de células imunes, o resultado final seria provavelmente contraproducente. Desta forma, para conseguirmos nos beneficiar das descobertas deste trabalho, precisaremos ser capazes de produzir drogas que inibam o consumo de açúcar especificamente por células tumorais. Por outro lado, um benefício a curto prazo poderá ser a medida do consumo de açúcar por células tumorais para identificar quais pacientes se beneficiarão do uso de imunoterapias.

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