Um novo recorde para o Guiness book das bactérias

Por Giordano Wosgrau Calloni e Ricardo Mazzon – Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

Ao pensar em bactérias, comumente se imagina organismos unicelulares microscópicos, invisíveis a olho nu e que requerem instrumentos especiais para serem vistos. Essa ideia é geralmente correta, mas não em todos os casos. 

A maioria das bactérias não é visível sem um microscópio devido ao limite de resolução dos olhos humanos. Esse limite é a menor distância entre dois pontos que ainda podem ser percebidos como distintos. Por exemplo, o olho humano tem um limite de resolução de cerca de 0,2 mm, o que significa que distâncias menores se tornam invisíveis. Abaixo desse limite, é necessário usar um microscópio óptico de luz (M.O.L), que permite ver objetos cerca de 1.000 vezes menores. Assim, uma célula bacteriana que apresenta tamanho médio entre 1 e 2 micrômetros de comprimento não pode ser vista a olho nu porque possui um tamanho muito diminuto (um ou dois milésimos de milímetro, i.e., 0,001 e 0,002 mm), e, portanto, está muito abaixo do limite de resolução do olho humano. Portanto, tudo que está acima de 0,2 mm é visível a olho nu. 

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Extra! Extra! Uma nova organela é descoberta! Agora em Algas!

Giordano Wosgrau Calloni – Departamento de Biologia Celular, Embriologia e Genética – Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

Os leitores fiéis do CDQ talvez irão lembrar que há cerca de um ano atrás (15/06/2023) minha postagem foi a respeito de algo que com muita raridade acontece: a identificação de uma nova organela celular . A organela, chamada de corpos PXO havia sido descoberta em células do intestino de moscas da fruta e atuava como um sensor e reservatório de fosfato. O artigo científico havia sido publicado na prestigiosa Revista Nature.

Braarudosphaera bigelowii com seta preta indicando o nitroplasto. Tyler Coale, UCSC.

Pois pasmem, menos de um ano depois, mais precisamente em 11/04/2024, Cientistas Descobriram Que… as algas também contam com uma organela nunca identificada até então, ou pelo menos não identificada como uma organela! A descoberta foi feita na alga marinha Braarudosphaera bigelowii e a organela está sendo chamada de Nitroplasto sendo responsável pela fixação do nitrogênio nestes organismos.

Epa, mas percebam pela frase anterior que parece haver uma complicação nessa estória! Essa organela era algo que já se sabia que estava ali (diferente dos corpos PXO que nunca haviam sido observados até então), mas que não era considerado uma organela! E como pode isso? 

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Repensando o Transplante de Medula óssea: será o fim da quimioterapia?

Por Patrícia Shigunov – Instituto Carlos Chagas – FIOCRUZ

O transplante de medula óssea, também conhecido como transplante de células-tronco hematopoiéticas, é um procedimento médico complexo utilizado para tratar diversas doenças do sangue, como leucemias, linfomas e algumas condições genéticas. As células-tronco hematopoiéticas desempenham um papel vital na saúde sanguínea, sendo responsáveis pela produção de todas as células sanguíneas ao longo da vida de uma pessoa. Antes de realizar o transplante de medula óssea, é essencial preparar o ambiente da medula óssea do receptor para receber as novas células-tronco saudáveis.

A quimioterapia e/ou radioterapia são administradas para eliminar as células-tronco hematopoiéticas doentes do receptor e eliminar o sistema imunológico, minimizando o risco de rejeição das células transplantadas. Apesar de sua eficácia, o transplante está associado a diversos efeitos colaterais e complicações, cuja gravidade varia conforme o estado do paciente, o tipo de transplante e as fontes de células-tronco utilizadas. Embora esse procedimento seja fundamental, acaba impactando as células saudáveis.

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O que a jararaca tem a ver com a hipertensão?

Por Daniel Fernandes e Jamil Assreuy – Departamento de Farmacologia – Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

A familiaridade com a hipertensão, popularmente denominada pressão alta, é quase inevitável. Esta condição crônica afeta muitas pessoas e sua gravidade reside no fato de que representa um dos principais fatores de risco para o desenvolvimento de condições sérias, como acidente vascular cerebral, infarto, aneurisma arterial, insuficiência renal e cardíaca.

Jararaca. Fonte: Instituto Butantan

Felizmente, hoje dispomos de diversas opções de tratamento para a hipertensão. Uma abordagem notável teve início com as pesquisas do cientista brasileiro Sérgio Ferreira, que, em colaboração com cientistas de diversas partes do mundo, desvendou os componentes isolados a partir do veneno de jararaca (Bothrops jararaca). Esses estudos revelaram que os componentes do veneno da jararaca eram capazes de reduzir a formação de um peptídeo (pequena cadeia de aminoácidos) chamado angiotensina II.

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Novas Reviravoltas na Guerra dos Tronos? Um tal fóssil da Anatólia…

Por Paulo César Simões-Lopes – Departamento de Ecologia e Zoologia – UFSC

Ossos e dentes fragmentados! Isso é tudo o que temos ao olhar em direção ao passado da evolução humana e de nossos parentes mais antigos. Sim, saímos da África ou do Oriente Médio e nos espalhamos pelo mundo. Essa foi a nossa sina. Mas o que aconteceu antes? Bem antes…

Estamos falando de uma data difícil de compreender mentalmente. Seis ou sete milhões de anos é uma abstração para a maioria de nós. Mas foi nesse tempo que um tal ancestral comum, que partilhamos com os outros grandes primatas − especialmente com a linhagem chimpanzé −, vagou por algum lugar da África.

Os cientistas costumam dar o crédito a um tal Sahelanthropus tchadensis, filho da fornalha da África. É uma boa pista, mas não a única. A ele caberia o trono − a alcunha de elo perdido −, por fim descoberto e coroado. Mas e antes dele? Lá pelos oito milhões de anos em direção ao passado?

Bem, em verdade há um mar de ossos e dentes fragmentados, alguns pedaços de mandíbula, crânios quebrados, ossos do quadril e assim por diante. Todos de primatas quadrúpedes, mas que partilhavam seu parentesco com outros grandes primatas como os gorilas e orangotangos. Assim, eles não pertenciam ao nosso ramo evolutivo imediato. Estavam espalhados pela Ásia, África e Europa, mas foi então que os Cientistas Descobriram Que nesse quebra-cabeças complexo, poderia haver algo mais… 

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Fungos na mira da extinção

Por Kelmer Martins da Cunha & Elisandro Ricardo Drechsler dos Santos, Dpto. de Botânica, UFSC

E aí caro leitor, você sabia que existem espécies de fungos que podem deixar de existir nas próximas décadas? 
Pois é, hoje iremos falar sobre como os fungos também estão ameaçados e que as ameaças são praticamente as mesmas que colocam em risco os animais e as plantas.

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“Odontoblasto transdutor”: de peça em peça a teoria ganha espaço

Por Dra. Michelle T. Biz do Dpto. de Morfologia da UFSC

Quem nunca sentiu dor de dente ao morder um picolé? 

Embora este tipo de sensibilidade dentinária seja um relato antiguíssimo e um problema frequente na população, o exato mecanismo biológico pelo qual estímulos externos incidindo sobre a superfície do dente estimulam os nervos que estão dentro do dente (na polpa dentária) causando a dor é ainda obscuro, permanecendo no campo da teoria.

Atualmente, a teoria mais aceita é a TEORIA HIDRODINÂMICA: estímulos aplicados à superfície do dente (como o frio) provocam a movimentação de líquido no interior dos túbulos dentinários (Figura 1), que por sua vez estimula, mecanicamente, as terminações das fibras nervosas que estão na polpa dentária.

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