Por Paulo César Simões-Lopes – Departamento de Ecologia e Zoologia – UFSC
Uma pergunta recorrente é a de “por que somos como somos?” Por que genocídios, fomes planejadas, dominação, assassinatos e também pacificações, resoluções de conflitos e assim por diante? Um dos caminhos para entender isso é perguntar para nossa espécie irmã e ponderar sobre o que possuímos em comum ou não. Mas aí temos um problema de partida: todos os nossos parentes estão mortos ou, dizendo de uma forma mais branda, nossas espécies irmãs estão extintas faz tempo (neandertais, denisovianos ou quaisquer outras). Quem sobrou foi nosso distante primo chimpanzé, Pan troglodytes, com o qual compartilhamos quase todos os genes.
O eminente primatólogo Franz de Waal trouxe então alguma luz em seu excelente livro “Our inner primate” (traduzido para o português como Eu primata). Justo aí, ele nos lembrou que existem duas espécies de chimpanzés, sendo a outra o chimpanzé pigmeu ou bonobo, Pan paniscus. Como as duas são espécies irmãs, em pé de igualdade, devemos procurar em ambas os traços misteriosos que compõem a nossa natureza. É o que compartilhamos com elas que importa, isto é, aquilo que estava no ancestral remoto dos chimpanzés e humanos lá pelos sete milhões de anos.
De Waal simplificou as coisas para nós mostrando como herdamos os genes briguentos do chimpanzé comum e os genes apaziguadores dos bonobos, já que esses últimos fazem todo o possível para as coisas não pegarem fogo de vez. Mais do que isso: fazem sexo para relaxar as tensões sociais e evitar confrontos. Enfim, nosso lado belicoso e aquele apaziguador (e de luxúria) teriam origens bem marcadas e, logicamente, nos teriam sido legados por aquele ancestral antigo. Mas o bacana da ciência é que alguém, em algum lugar, não se conformará com ideias definitivas. Irá continuar procurando uma dada agulha num palheiro até encontrar.
Continuar lendo