Agrotóxicos aumentam o risco de desenvolver a doença de Parkinson

Por Marcelo Farina                                                                                                                                 Prof. do Dpto. de Bioquímica da UFSC

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Marcelo - imagemOs agrotóxicos são compostos amplamente utilizados na agricultura devido a suas propriedades inseticidas, herbicidas e fungicidas. No Brasil, sua utilização tem aumentado significativamente nos últimos anos e este fato parece ser responsável, ao menos em parte, pelo elevado grau de exposição humana a tais compostos. A exposição a uma grande quantidade de agrotóxicos durante um curto intervalo de tempo (exposição aguda) pode causar sintomas bastante evidentes (dores de cabeça, dificuldade de respirar, etc.), os quais comumente fazem com que as pessoas intoxicadas busquem atendimento em postos de saúde ou hospitais. Por outro lado, uma situação bastante comum atualmente é a exposição a pequenas quantidades diárias de agrotóxicos durante um longo intervalo de tempo (exposição crônica). Embora muito pouco é sabido sobre os efeitos destas exposições crônicas a agrotóxicos, algumas evidências científicas têm sugerido sua contribuição para o desenvolvimento de doenças neurodegenerativas, tais como a doença de Parkinson.

Em 2013, cientistas do Parkinson Institute, Milão, Itália, realizaram uma minuciosa análise de mais de 100 estudos epidemiológicos relacionados à exposição humana a agrotóxicos e o desenvolvimento da doença de Parkinson1. A partir do uso de uma técnica para combinar os resultados provenientes de diferentes estudos epidemiológicos (metanálise), os cientistas descobriram que as atividades agriculturais e o uso de agrotóxicos definitivamente contribuem para o desenvolvimento da doença de Parkinson. Você deve estar pensando: “Mas eu achava que a doença de Parkinson fosse causada por fatores genéticos!”. Seu pensamento não está errado. Entretanto, apenas cerca de 5% do total de casos da doença de Parkinson está relacionado apenas a fatores genéticos. Os demais casos também estão relacionados a fatores ambientais, ou seja, ao conjunto de fatores aos quais somos expostos diariamente. No estudo acima mencionado, os cientistas italianos descobriram que os agrotóxicos representam um destes fatores ambientais. Embora neste estudo os cientistas descobriram a existência de um aumento do risco de desenvolvimento da doença de Parkinson em indivíduos expostos a quaisquer tipos de agrotóxicos, este risco foi muito maior em indivíduos particularmente expostos ao herbicida Paraquat e ao fungicida Maneb (ambos amplamente utilizados em vários países, incluindo o Brasil). O fungicida Maneb é bastante utilizado nos cultivos de batata, alface e milho, enquanto o herbicida Paraquat é mais utilizado nas plantações de soja, milho, algodão e frutas.

Os cientistas também apontaram para certas dificuldades na realização e análise deste tipo de estudo, uma vez que é bastante difícil definir com exatidão (i) quais foram os períodos de exposição de cada indivíduo, (ii) a que doses de agrotóxicos os indivíduos foram expostos e (iii) se foram expostos a mais de um tipo de agrotóxico (o que geralmente ocorre devido aos diferentes agrocultivos realizados). De particular importância, os efeitos tóxicos causados por um agrotóxico poderiam ser potencializados (aumentados) pela exposição a um segundo agrotóxico, o que parece ser a relação entre o herbicida Paraquat e o fungicida Maneb.

A partir das evidências acima-mencionadas, parece não ser mais surpresa o fato de a incidência da doença de Parkinson ser maior em agricultores expostos a agrotóxicos quando comparada aos demais indivíduos. Os resultados do estudo reforçam a necessidade de um controle efetivo no que se refere ao comércio e uso adequados de pesticidas por parte dos agricultores, os quais geralmente não possuem o conhecimento necessário para compreenderem aspectos relacionados à toxicidade dos agrotóxicos utilizados. Salienta-se que o estudo acima-mencionado apresenta conclusões baseadas em trabalhos envolvendo basicamente agricultores. A influência dos agrotóxicos presentes em nossos alimentos no desenvolvimento de doenças neurodegenerativas, incluindo a doença de Parkinson, ainda é um tema pouco estudado e sem conclusões definitivas.

Nas discussões acerca dos resultados obtidos, os cientistas que realizaram o estudo acima-mencionado também enfatizam a questão da interação entre fatores ambientais e genéticos, onde determinados fatores atribuídos geneticamente e intrínsecos ao indivíduo (por exemplo, níveis e formas de enzimas) podem modular (aumentar ou diminuir) os efeitos tóxicos de fatores ambientais, tais como os agrotóxicos. Neste contexto, é importante lembrar que embora você não possa escolher seus genes, você pode decidir sobre muitos dos fatores ambientais aos quais você quer ou não quer expor-se. Tendo em vista que estes fatores ambientais parecem contribuir majoritariamente para o desenvolvimento da doença de Parkinson, evitar a exposição a agrotóxicos certamente representa uma sábia decisão.

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