Os tumores e os “zombies” que vivem no nosso corpo…

Por Hélia Neves                                                                                                                                    Prof. da Faculdade de Medicina de Lisboa – Portugal

Enraizados na nossa cultura popular, quer através de livros, quer mais recentemente através da sua banalização em filmes e séries populares da TV, parece que os zombies vieram para ficar! O zombie é uma figura ficcional cujo estereótipo define-se como uma pessoa morta que foi reanimada e que vive a perambular de forma bizarra, privada de vontade própria… É um morto-vivo! Mas hoje trago-vos um zombie um pouco diferente, bem real e que pode habitar no nosso corpo… Intrigado (a)? Espero que sim, porque esta história conta como eles foram descobertos e como num futuro, talvez não muito distante, esses poderão ser importantes no desenvolvimento de novas terapias para combater o cancro (câncer)…

Por injecção intravenosa, as células tumorais (verde) chegam em segundos ao pulmão (células do pulmão a azul) (imagem da esquerda). Nos capilares do pulmão, as células tumorais fragmentam-se em menos de 8h, originando micropartículas tipo “zombie” (imagem da direita). Adaptado de Headley et al, Nature, 2016.

Por injecção intravenosa, as células tumorais (verde) chegam em segundos ao pulmão (células do pulmão a azul) (imagem da esquerda). Nos capilares do pulmão, as células tumorais fragmentam-se em menos de 8h, originando micropartículas tipo “zombie” (imagem da direita). Adaptado de Headley et al, Nature, 2016.

Cientistas descobriram que… as células tumorais (em circulação) ao invadirem o pulmão modificam esse local para que, posteriormente, outras células tumorais invasoras possam alojar-se e multiplicar-se no órgão. Esse feito é conseguido, porque as primeiras células tumorais que invadem o órgão recrutam a “ajuda” de células do sistema de defesa que, normalmente, vivem nos vasos do pulmão.

Como já reportado no texto do blog “Como a célula tumoral engana os seus parceiros…” de 8 de Dezembro passado, quando as células do nosso corpo sofrem alterações, elas podem formar tumores (primários) que depois evoluem ganhando novas propriedades e levando o tumor a invadir outras regiões do corpo. As células com capacidade de invasão designam-se por células tumorais malignas e quando estas se alojam em novos órgãos formam metástases (tumores secundários). A formação de metástases em órgãos vitais como o pulmão, cérebro e fígado são, atualmente, a maior causa de morte por cancro.

Em março desse ano (2016), o grupo liderado por Max Krummel da Universidade de São Francisco nos EUA, usando o modelo de ratinho (camundongo) de cancro metastático, estudou o comportamento das células malignas de melanoma (tumor da pele) quando estas se alojam no pulmão. Nesse estudo, os investigadores mostraram que as primeiras células tumorais, ao chegarem no pulmão, através da circulação sanguínea, acabam por se fragmentar dentro dos capilares (pequenos vasos sanguíneos) pela força do próprio fluxo sanguíneo. No entanto, nesse trabalho os investigadores puderam avaliar a importância da geração desses fragmentos celulares…

Utilizando a técnica de microscopia de 2 fotões (fótons) com a visualização adaptada a tecidos vivos com movimento, os investigadores observaram que os fragmentos celulares gerados pela morte das células tumorais se comportavam como zombies, ganhando uma “nova vida”! Os fragmentos “arrastavam-se” ao longo das paredes dos capilares alertando e chamando os macrófagos. Os macrófagos são as células do sistema de defesa (o sistema imunológico), especializadas em limpar os restos de células mortas ou lixos dos tecidos do nosso corpo, eles são como um “carro do lixo”. Contudo, e nesse caso, os macrófagos ao engolirem as partículas zombie modificam-se… Eles deixam os vasos capilares, entram no tecido do próprio pulmão e criam “nichos protectores” das células malignas. Assim e numa segunda invasão, os macrófagos ajudam as células tumorais a instalar-se, permitindo que estas formem colônias de células metastáticas no pulmão.

Como referido por M. Krummel, o investigador principal desse estudo publicado na revista Nature, “Para nossa surpresa, vemos que à medida que as células malignas se fragmentam e morrem, elas alteram as células do sistema imunitário que se tornam parceiros e preparam o caminho para as próximas células invasoras.”

Com esse estudo surge uma nova compreensão de como ocorrem as interações precoces entre as células tumorais invasoras e as células do sistema imunitário. E também renova-se a esperança do aparecimento de novas abordagens terapêuticas para a prevenção e o tratamento dos tumores invasivos (metastáticos).

Para acessar o artigo original, clique aqui.

Um comentário sobre “Os tumores e os “zombies” que vivem no nosso corpo…

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