Sobre a velhice e os tumores

Por Bruno Costa da Silva                                                                                                  Pesquisador do Champalimaud Centre for the Unknown/Lisboa – Portugal

Dados da Organização das Nações Unidas estimam que a população mundial de pessoas com mais de 60 anos seja superior a 2 bilhões de indivíduos até o ano de 2050. Isso significa que, além de um sistema previdenciário robusto, precisaremos de uma atenção ainda maior aos futuros casos de câncer. Já é sabido que os cânceres são, de maneira geral, doenças de envelhecimento, sendo que quanto mais idosos ficamos maior é o tempo para acumularmos mutações associadas a eles. Além disso, quanto mais velho ficamos, menor é o vigor do nosso sistema imune para lutarcontra infecções,células tumorais e maior a chance de termos doenças inflamatórias crônicas associadas ao aparecimento de cânceres. Como já mencionado diversas vezes aqui no CDQ, sabe-se que células não tumorais apresentam um importante papel no surgimento e avanço de lesões tumorais (para saber mais clique nos links: texto 1, texto 2, texto 3). Apesar disso, sabe-se ainda muito pouco se, e como, a atividade dessas células não tumorais é afetada pelo processo de envelhecimento.

Para tal, cientistas de quatro países liderados pelo Dr. Ashani Weeraratna do Instituto Wistar nos Estados Unidos buscaram entender como populações de células comumente associadas aos tumores se comportam em faixas etárias diferentes. Em um estudo publicado na revista britânica Nature, em abril de 2016, Cientistas Descobriram Que diferenças entre células não tumorais de pacientes jovens (com menos de 35 anos) e idosos (com mais de 55 anos) podem explicar como pessoas mais velhas são mais susceptíveis a tumores. Nesse estudo, demonstrou-se que, em idades avançadas, fibroblastos, células estreitamente associadas com diversos tipos tumorais, passam a produzir maiores níveis da proteína sFRP2. Viu-se que sFRP2 é capaz não apenas de aumentar a capacidade de espalhamento local e de formação de metástases pulmonares de melanomas, mas também de proteger esses tumores contra a ação de quimioterapias. Os autores também sugeriram que essas modificações em fibroblastos de pele podem potencialmente oferecer suporte para a formação de melanomas a partir de nevos melanocíticos, aquelas pintinhas escuras na pele que arrepiam os cabelos de qualquer dermatologista. Viu-se também que todo esse processo é baseado na liberação de moléculas envolvidas com a lesão de tecidos, chamadas de espécies reativas de oxigênio.

Esse estudo demonstra mais uma vez que a resposta para a prevenção e erradicação de tumores pode estar não apenas no desenvolvimento de tratamentos dirigidos às células tumorais, mas também buscar meios de entender como células não malignas auxiliam no surgimento de tumores. Com isso poderão se desenvolver terapias que sejam também dirigidas a essas células. Apesar dessa ideia ser elegante e tentadora, estudos mais detalhados levando em conta esta nova perspectiva ainda são necessários. Isto ficou claro no próprio trabalho do grupo do Dr. Weeraratna, aonde a tentativa de se inibir a ação de sFRP2 em animais idosos resultou não apenas na ausência de efeitos antitumorais, mas principalmente na geração de uma inflamação severa que levou à morte dos animais tratados. Apesar desse resultado aparentemente negativo, outros estudos vêm demonstrando que o tratamento de pacientes oncológicos com inibidores das espécies reativas de oxigênio, produzidas por células não tumorais, têm trazido resultados animadores. Esse trabalho deve inspirar novos estudos que busquem melhores maneiras de tratar células não tumorais associadas a tumores, ainda auxiliar futuramente no tratamento de doentes oncológicos.

Para acessar o artigo original, clique aqui.

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