Uma caneta e 10 segundos podem ser suficientes para detectar células cancerígenas

Por Bruno José Gonçalves da Silva Prof. Dpto. de Química – UFPR

Figura 1: Dispositivo, semelhante a uma caneta, utilizado para detectar células cancerígenas. Fonte: Divulgação/Universidade do Texas

“Hoje é um belo dia para salvar vidas!”. Fãs de seriados com certeza reconhecem essa frase. Trata-se das palavras comumente ditas pelo personagem Derek Shepherd, da séria Grey’s Anatomy, antes de iniciar suas complicadíssimas neurocirurgias. Mas calma…, apesar deste texto apresentar o que parece ser um grande avanço para a medicina cirúrgica e preventiva, ele não irá tratar de seriados e não contém spoilers. Na verdade, trata-se do desenvolvimento de um dispositivo portátil para detectar, em apenas 10 segundos, células cancerígenas durante uma cirurgia! Tal dispositivo, que se assemelha muito a uma caneta (Figura 1), foi criado por cientistas da Universidade do Texas, Estados Unidos, sendo que a pesquisa foi conduzida por uma brasileira, a professora de química Livia Eberlin.

Mas vamos entender como funciona essa “super caneta”! A MasSpec Pen, como foi batizada pelos cientistas que a desenvolveram, durante uma cirurgia toca um tecido potencialmente cancerígeno liberando uma minúscula gota de água. As substâncias químicas presentes nesse tecido migram, então, para essa pequena gota, que rapidamente é sugada pela caneta. Então, a caneta é ligada a um equipamento conhecido como espectrômetro de massas, (por isso do nome MacSpec Pen)! Tal equipamento é bastante utilizado para identificar uma imensa variedade de compostos químicos em diferentes tipos de amostras a partir de suas respectivas estruturas químicas e massa molecular. isso, uma vez que a gota contendo as substâncias presentes no tecido é encaminhada para o equipamento, seria possível diferenciar moléculas presentes nos tecidos sadios e cancerígenos simplesmente através de comparação com uma biblioteca de compostos químicos que o próprio equipamento possui. Ou seja, seria como uma espécie de “impressão digital química” do tecido analisado.

Isso ajudaria os médicos a concluírem se aquele tecido é sadio ou proveniente de um tumor. Esse tem sido o maior desafio dos cirurgiões nesta área: descobrir, rapidamente, a fronteira entre um câncer e um tecido normal, que em muitas vezes não é tão visível. Além disso, retirar apenas uma parte do tecido pode fazer com que as células cancerosas remanescentes deem origem a um novo tumor, ao mesmo tempo em que remover muito tecido pode causar graves danos, especialmente em órgãos como o cérebro. Tudo isso somente é possível pelo fato de que a química interna das células cancerígenas, que crescem e se espalham muito rápido, é bastante diferente das células de um tecido saudável. Segundo a pesquisadora Livia Eberlin, “o que é emocionante sobre essa tecnologia é o quão claro ela atende a uma necessidade clínica” e que “a ferramenta é, ao mesmo tempo, sofisticada e simples. E vai poder ser usada pelos cirurgiões em breve!”.

A tecnologia, publicada na revista científica Science Translational Medicine em setembro de 2017, foi testada em 253 amostras de tecido de aproximadamente 1,5 mm de diâmetro, gerando resultados de mais de 96% de precisão e até mesmo sendo possível a diferenciação de tumores benignos e malignos para o câncer de tireoide. Ainda segundo a pesquisadora, alguns testes precisam ser realizados para o aprimoramento tanto da caneta quanto do equipamento, para que seja possível o transporte do mesmo para dentro e fora dos quartos de hospitais e, assim, espera-se que o dispositivo possa ser utilizado em cirurgias já no ano que vem. Seria uma ótima notícia para salvar milhões de vidas…

Para acessar o artigo original, clique aqui.

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