Células-tronco podem servir como vacina contra o câncer

Por Marco Augusto Stimamiglio – Instituto Carlos Chagas – Fiocruz/PR

Baseando-se na reconhecida habilidade de proliferar rapidamente e gerar inúmeros clones de si mesmas, as células cancerosas têm sido comparadas às células-tronco pluripotentes. Essa e outras similaridades compartilhadas entre esses dois tipos celulares deram origem à atual hipótese das células-tronco tumorais, cuja proposta define que, dentre todas as células cancerosas, algumas atuem como células-tronco que se reproduzem e sustentam o câncer de forma semelhante às células-tronco que normalmente renovam e sustentam nossos órgãos e tecidos. Foi com essa ideia em mente que um grupo de cientistas de diferentes partes do mundo (Estados Unidos, Holanda, Alemanha e Coreia) ousou testar células-tronco pluripotentes induzidas (iPSCs; consulte nossos textos anteriores) como uma potencial vacina anticâncer. O artigo publicado em fevereiro de 2018, na renomada revista Cell Stem Cell, relata que injeções de iPSCs irradiadas protegem camundongos do desenvolvimento de câncer de mama, pulmão e pele, assim como previnem o reaparecimento de tumores removidos cirurgicamente.

Embora possa parecer estranho usar um tipo de célula-tronco para ativar a imunidade contra tumores, os indícios de que essa abordagem poderia funcionar já foram apontados na literatura científica há tempo. Por exemplo, células cancerígenas e células-tronco embrionárias têm perfis de expressão gênica e antígenos similares; estudos de quase um século atrás mostram que a injeção de material embrionário em animais é capaz de protegê-los contra tumores transplantados; mais recentemente, foi demonstrado que células-tronco embrionárias podem proteger esses animais do câncer. Agora, neste artigo atual, os cientistas foram ainda mais longe, pois usaram iPSCs, células que podem ser isoladas de qualquer tecido de um paciente (por exemplo, sangue ou pele) e transformadas em células-tronco pluripotentes. Em seus experimentos, como estratégia de prova de conceito, os cientistas usaram camundongos “gêmeos” (singênicos) e de suas células fizeram iPSCs que foram irradiadas para não gerarem tumores. Essas foram então injetadas como vacinas anticâncer em outros camundongos singênicos. Tendo determinado que as iPSCs de camundongos (e também de humanos) apresentam perfis semelhantes aos das células cancerosas em relação à expressão de genes, os pesquisadores injetaram nos camundongos vacinados células de câncer de mama, pele ou pulmão. Enquanto os animais que não receberam as iPSCs desenvolveram tumores consideráveis ao longo das semanas seguintes à injeção de células cancerosas, os camundongos que receberam a vacina tenderam a desenvolver tumores menores ou tumores que regrediram, mostrando que a vacina funcionava de forma profilática.

Para confirmar que a vacina conferia imunidade específica contra os tumores, a equipe de cientistas transferiu células do sistema imune (linfócitos T) de camundongos singênicos vacinados para os não vacinados que tinham câncer de mama. O que eles viram foi a regressão dos tumores nesses animais. Os cientistas demonstraram ainda que, embora a vacina não pudesse eliminar totalmente o câncer de pele nos camundongos, ela impedia o crescimento de tumores parcialmente removidos cirurgicamente. Essa premissa seria muito interessante se confirmada em humanos, uma vez que as cirurgias de remoção de tumores são normalmente incapazes de retirar todas as células cancerosas de um paciente. Dessa forma, uma vacinação simultânea à cirurgia e com capacidade de impulsionar a resposta anticâncer do próprio paciente seria altamente valiosa.

É evidente que esse tipo de abordagem está apenas começando, pois nos faltam muitas informações e conhecimentos a respeito deste potencial das iPSCs e de seu efeito imunomodulador. Algumas perguntas que ainda ficam sem resposta são: Ao usar células do próprio organismo como vacina, não estaríamos aumentando o risco de induzir autoimunidade? E se isso acontecer contra nossas próprias células-tronco, por quanto tempo viveríamos ou que tipo de consequências nos acarretaria? Mas se as células-tronco não são afetadas, como ou que mecanismos as mantém imunes ao ataque do sistema imunológico?

Para acessar o artigo original, clique aqui.

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